Primeira edição (ver aqui)

   

Para a História do Club Setubalense (1855-2010)

Carlos Mouro e Horácio Pena

.

.

.

155anos

Pg00

ÍNDICE

 

- Sobre este livro...

 

- Siglas

 

- Para a História do Club Setubalense (1855-2005)

- A emergência de uma nova classe social. A valorização do ócio. Espaços de cultura e lazer

- Setúbal, em meados de oitocentos. Economia e sociabilidade

- Os Cafés

- Os Passeios Públicos

- O Bonfim

- O Passeio da Praia

- O Passeio do Lago

- A Colónia Balnear

- Os Clubes e a Sociedade Oitocentista. Breves definições

- A Sociedade de Recreio Familiar: Os antecedentes do Club Setubalense

- O Club Setubalense

- Antecedentes

- A Fundação

- Os Fundadores

- Os Primeiros passos do Club Setubalense

- O Grémio Setubalense (1890-1898)

- A Sede Adiada

- Uma nova sede para o Club Setubalense

- O Regicídio

- A Quarta Sede

Pg01
- Caracterização Sócio-Profissional dos Membros do Club Setubalense (1876-1935)
- A Cidade e o Club Setubalense na primeira metade do século século XX

-Club Setubalense e o VII Centenário de S. Francisco de Assis

-Club Setubalense e o I Congresso de Pesca e Conservas

- Outras Realizações

- O Primeiro Centenário do Club Setubalense

- O Club Setubalense hoje

- Palavras Finais

- O Edifício do Club. Enquadramento Envolvente

- Notas

- Bibliografia

Pg02
Sobre este livro…
 

Não terá sido fácil a elaboração desta História do Club Setubalense que é também parte da História da nossa Cidade, ao longo de 150 anos de existência.

Para a elaboração do texto, foi necessário um árduo trabalho de pesquisa: consulta de jornais de época, de estudos de investigação histórica e sociológica, do arquivo do próprio Club, quase inexistente para além dos livros de actas naturalmente sucintas; recolha de depoimentos de sócios que acompanharam as últimas décadas e das suas memórias de família. Impõe-se-nos uma referência especial à entrevista gravada, concedida pelo, então, sócio n.º 1, Dr. José Martins Soveral Rodrigues, sócio de presença permanente durante os quase 75 anos de associado que teria completado, precisamente este ano, com o seu centésimo aniversário, se não tivesse infelizmente partido em data recente. Aqui lhe prestamos a nossa homenagem pelo seu amor e fidelidade ao Club Setubalense.

Os autores do texto Carlos Mouro e Horácio Pena são dois investigadores já de provas dadas, apaixonados pela descoberta e pelas lições do passado, de grande pertinência, informação e rigor científico, a que aliam uma comunicação objectiva e clara, numa escrita fluente, elegante e apelativa.

[….]

No livro insere-se, ainda, o excelente trabalho sobre a génese e a arquitectura do edifício que alberga o Club Setubalense, realizado pela Mestre Arquitecta Manuela Tomé, colaboração que, tanto pelo seu interesse, como pelo conhecido prestígio e competência da autora, muito valoriza o conjunto da obra.

A todos os que tornaram possível a concretização deste projecto – aqueles que disponibilizaram a informação, os autores do texto, os autores da ilustração, a autora do estudo arquitectónico, o coordenador da organização gráfica, as entidades que nos apoiaram e os amigos que nos incentivaram – a todos, o nosso profundo agradecimento.

 

A Direcção do Club Setubalense
Pg03

 

Siglas

Para uma melhor compreensão das notas ao texto, junto damos uma tabela que desdobra as siglas mais usadas e que mais dificuldade de interpretação poderiam causar ao leitor.

 

 

ADS    – Arquivo Distrital de Setúbal.

ACS    – Arquivo do Clube Setubalense.

FAC    – Fundo Almeida Carvalho.

FN       – Fundo Notarial.

FP       – Fundo Paroquial.

GEPB  ­– Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

O         – Óbitos.

Pg04
   

Para a História do Club Setubalense (1855-2010)

Carlos Mouro e Horácio Pena

 

 

“O que há de vivo na tradição

não é no passado, mas no presente que existe”

– Raul Proença[1]

 

 

 

Quando aceitámos o honroso desafio da Direcção do Club Setubalense para compilar elementos com que fosse possível passar a limpo, ainda que em traços breves, algumas páginas de história desta mais que centenária instituição local, pensámos que iríamos cumprir o nosso ofício de historiadores stricto sensu: com rigor, sem paixão; com entrega, mas com o distanciamento que sempre se impõe. Forçoso é, no entanto, dizer que não o conseguimos, pois que, afinal, os historiadores, homens comuns que vivem no seu tempo e no seu lugar e por isso inevitavelmente comprometidos com essa dupla circunstância, jamais poderão julgar-se alheios a paixões sobre o objecto do seu labor investigativo…

Estamos conscientes de ter usado de rigor, ainda que limitados pela inexistência de suficientes elementos de trabalho. 

O Club Setubalense, instituição activa no burgo sadino desde meados de oitocentos, não possui, infelizmente, arquivo compatível com o seu longo e honroso passado, o qual ainda existia em 1918. Sabemo-lo porque a 29 de Janeiro daquele ano foi proposto e aprovado, em reunião magna,

 

“…um voto de louvor ao nosso apreciado amigo e consócio Celestino Rosado Pinto[2], digno secretário da Direcção, que teve a paciência de pôr em ordem o arquivo do nosso Club[3].

 

Depois, em 1955, o Dr. Luís Teixeira de Macedo e Castro, então presidente da Assembleia Geral do Club, lutou contra dificuldades idênticas àquelas que experimentámos e tornou pública a falta de documentação no arquivo, quando procurava alinhar um discurso para as comemorações do primeiro centenário da instituição de que era membro. Lamentou-se, então,

 

“…pela falta de elementos de informação que um arquivo, que devia ser precioso de recordações, não pode fornecer por ter sido, infelizmente, quase todo destroçado pela acção do tempo”.
A ciência histórica não é imune à escolha, à selecção, voluntária ou involuntária, de materiais e de temas. Ainda assim, enquanto íamos cumprindo o objectivo proposto e aceite,

Pg05 - 06

não conseguimos nunca resistir ao fascínio de uma missão intensa e rica, desempenhada pelo Club Setubalense ao longo de mais de século e meio de actividade. Uma missão que, como pudemos documentalmente testemunhar, soube ser constantemente revigorada pelo espírito forte e empreendedor de sucessivas gerações de associados. 

Para a elaboração do estudo que vos apresentamos socorremo-nos dos elementos dispersos em documentação avulsa guardada em bibliotecas, arquivos e em colecções particulares ou esquecida em incontáveis e sempre surpreendentes páginas dos periódicos que, também eles, desde meados do século XIX, acompanharam notoriamente o pulsar do quotidiano local.

Queríamos partilhar convosco este sentimento que foi sendo construído de admiração e respeito!...

Cumpre, agora, que expliquemos aos leitores algumas orientações e percursos seguidos, para um mais completo entendimento dos elementos históricos que, cuidadosamente analisados, vos entregamos. 

Deste modo, procurámos traçar um quadro geral, diríamos mesmo impressionista, da sociedade sadina à época da fundação do Club Setubalense. Para tanto, tentámos contextualizar Setúbal adentro do panorama económico e social, impulsionado pelo movimento regenerador oitocentista.

Por esses tempos, a estrutura económica local alterou-se profundamente, quer pela decadência da economia tradicional que se traduziu na quebra das produções agrícolas (sal, vinho, laranja…), quer pela emergência de novas indústrias, com particular destaque para a produção conserveira e actividades subsidiárias (litografia, latoaria, caixotaria…). Tão profundas alterações ditaram a aparição de novas classes sociais e foram também alargando, quantas vezes desregradamente, o tecido urbano setubalense. Neste momento interessa-nos considerar, muito particularmente, a organização de uma jovem burguesia endinheirada, compreensivelmente ávida de afirmação no novo contexto social, político e cultural setubalense. É neste outro quadro social que assistimos, também, ao nascimento das associações, dos grupos familiares de teatro amador, das colectividades de cultura e recreio, dos órgãos de imprensa, dos passeios públicos, das idas ao campo e à praia… É ainda neste espaço material e imaterial, nesta ambiência propícia e propiciadora à fundação de novos laços de solidariedade forte entre pessoas com interesses e perspectivas culturais e sociais comuns que veio a criar-se o Club Setubalense. Pela ausência de documentação, a que já aludimos, tornou-se-nos impossível tentar uma caracterização mais ampla e convincente em torno do surgimento do Club Setubalense e do perfil dos respectivos associados. Ainda assim, julgamos ter conseguido periodizar os momentos fundamentais da vida e da actividade desta

Pg07

instituição, nomeadamente no que respeita à sua instalação em sedes sucessivamente conquistadas e adaptadas aos propósitos fundacionais.

O Club Setubalense, criado em 1855 com o explícito propósito de promover “a honesta convivência dos sócios”[4] conhecerá, na primeira metade do século passado, precisamente em 1928, um mais alargado objectivo que novos Estatutos, aprovados naquele ano, consagraram sob a formulação: “dar incremento à civilização por meio da convivência, da leitura e das reuniões familiares”[5].

Modernamente, após comemorar 150 anos de existência, e uma década decorrida sobre os alvores do segundo milénio, os Estatutos, aprovados em 18 de Dezembro de 2003, reinterpretam o espírito da centenária agremiação que agora se afirma como promotora da “cidadania através de actividades de carácter social e cultural, abertas à comunidade em geral e organizadas pelo Club ou em parceria com Entidades Públicas ou Privadas”[6].

De tão rico percurso procura o presente trabalho dar conta a Setúbal onde, há mais de século e meio, um punhado de homens soube criar esta instituição notável que é o Club Setubalense.

Este trabalho não teria sido possível sem os contributos de alguns amigos aos quais aqui deixamos público agradecimento: Amílcar AlbinoAntónio H. Quaresma RosaEusébio Camacho,João José de Sá Nogueira, Madureira Lopes, Maria Helena Fragôso de MattosSalvador Carlos da Cruz Peres.

Aos benévolos leitores pedimos que nos relevem as eventuais e involuntárias insuficiências do texto que, vivamente esperamos, possa por todos vir a ser continuado e enriquecido.

 

Setúbal, Outubro de 2010

Carlos Mouro e Horácio Pena


Pg08 - 09

A emergência de uma nova classe social. 

                  A valorização do ócio. Espaços de cultura e lazer.

 

 

 

“Por enquanto, nós não possuímos,

como homens livres,

se não a faculdade de o podermos ser.

Mas não usamos dessa faculdade”.

 

Ramalho Ortigão[7]

 

 

Em Portugal, a jovem burguesia nascida com o Liberalismo reforçou-se e afirmou-se, enquanto classe, ao longo da centúria de oitocentos. Tal processo implicou uma dupla diferenciação: antes de mais, relativamente aos grupos dominantes na sociedade portuguesa do Antigo Regime, que o mesmo é dizer, relativamente à “nobreza ociosa”. Depois, como é natural, relativamente aos estratos inferiores da hierarquia onde, muitas vezes, estes novos membros do tecido social mergulhavam raízes profundas.

O processo diferenciador a que nos referimos resulta da intersecção de três vectores.

Em primeiro lugar há que considerar a valorização da família e das relações familiares, entendida aquela como a célula-base da sociedade, como analogia mesmo do próprio Estado. (O rei era, nesta perspectiva, o pai da grande família portuguesa). Neste sentido, era enaltecido o tríplice papel da mulher enquanto esposa, mãe e educadora. Daqui parece, aliás, ter resultado uma melhoria da condição social feminina o que, se não se traduziu numa autêntica emancipação, culminou, ao menos, numa ténue habilitação. Habilitação, note-se, que apenas lhe permitiria um mais competente desempenho das tarefas que lhe eram destinadas no seu mister de donas de casa, de esposas e de mães[8].

Encontramos um segundo vector na adopção e vulgarização de novas noções de civilidade, dominada pela reserva e pelo comedimento. Os manuais de civilidade assumem, então, um papel de relevo ao divulgarem um vasto conjunto de regras de cortesia e princípios morais de conduta[9].

Por último há a registar a adopção de novos hábitos, disseminando-se por grande parte da população formas de divertimento que, pouco antes, estavam apenas reservadas a um grupo restrito. É assim que se vulgariza o acesso às estâncias balneares, acentuando-se o gosto pelo uso dos banhos de mar, favorecido pelo desenvolvimento dos transportes (caminho-de-ferro[10]), pelo impacto da publicidade e pelo fascínio que suscitava o estilo de vida 

Pg10

aristocrático que se buscava imitar. Também a Medicina concorreria para este novo movimento higienista ao fazer a defesa dos banhos de água salgada como tratamento curativo ou preventivo (talassoterapia).

Por outro lado multiplicam-se os teatros e teatrinhos (públicos e particulares), onde grupos de curiosos (expressão coeva para designar amadores, amantes da arte de Talma) representavam para um cada vez maior número de espectadores, entusiasmados e ávidos de divertimento. 

Ao mesmo tempo surgem os clubes, de inspiração diversa, e os estabelecimentos de venda de café (e de outras bebidas, bem entendido) impõem-se como novo espaço de encontro e tertúlia.

A música e a dança, por seu turno, acompanharam este movimento “civilizador” de forma tão exuberante que o século XIX pôde já ser considerado o século da música e da dança. A título de significativa curiosidade registe-se que entre 1861 e 1890 terão entrado, pelas alfândegas portuguesas, uma média de 500 pianos por ano. O piano tornava-se, assim, o instrumento musical por excelência da nova burguesia. A sua presença era mesmo tida por indispensável nos lares abastados. 

Mesmo no recato da casa, cria-se e destaca-se uma zona de representação, destinada aos visitantes, na qual “se realiza a valorização do tempo livre, onde se ostenta a possibilidade de despesas sumptuárias, onde, enfim, se revela a distinção”[11].

Durante a Regeneração, entre os anos de 1850 e 1890, viveu-se o período áureo das filarmónicas que surgiam de Norte a Sul do País, como fruto, muitas vezes, de rivalidades políticas ou bairristas, ora reais ora inventadas. Surgidas nos meios populares do artesanato e do operariado, cedo os caciques locais viram nestes núcleos de sociabilidade artística e popular excelentes meios para consolidarem as suas bases de apoio eleitoral. Assim, frequentemente, eram estes influentes cidadãos quem promovia e apadrinhava a criação e manutenção dos agrupamentos musicais, oferecendo instrumentos ou fardando os elementos que os compunham.

Em finais do século XIX, começavam a surgir, por outro lado, referências à realização de serões dançantes que decorriam em casa de recentes titulares, predominantemente no Sul de Portugal. A partir da década de 1870 parece ter-se expandido o gosto pelos chamados “bailes campestres” realizados por iniciativa de sociedades organizadas ou por vontades individuais.

Neste período, afirma-se o prazer da viagem, ora ao interior de cada indivíduo – primeiros passos dos estudos psicanalíticos, universalizando-se o gosto e a pesquisa em torno das questões psicológicas, ora motivada pelo simples desejo de descoberta e conquista de

Pg11

 renovados horizontes para além do espaço de vivência e trabalho quotidianos e, até, em deslocações intercontinentais, suscitadoras do encontro com o “outro” em “nós”, ou para além de nós. Redescobre-se a Natureza e procura-se ter dela uma mais ampla fruição e um conhecimento suscitado quer pela admiração, quer, umas quantas vezes, buscando formas de a dominar.

Não queremos alongar-nos sobre estes aspectos. Dêmos, por essa razão, a palavra a um poeta, pois que só os poetas sentem e dizem tudo o que aos comuns mortais não é permitido sequer pensar:

 

De tarde[12]

Naquele pic-nic de burguesas, 
Houve uma coisa simplesmente bela, 
E que, sem ter história nem grandezas, 
Em todo o caso dava uma aguarela. 

Foi quando tu, descendo do burrico, 
Foste colher, sem imposturas tolas, 
A um granzoal azul de grão-de-bico 
Um ramalhete rubro de papoulas. 

Pouco depois, em cima duns penhascos, 
Nós acampámos, inda o sol se via; 
E houve talhadas de melão, damascos, 
E pão-de-ló molhado em malvasia. 

Mas, todo púrpuro, a sair da renda 
Dos teus dois seios como duas rolas, 
Era o supremo encanto da merenda 
O ramalhete rubro das papoulas.

 

Uma vez esboçado este quadro, necessariamente incompleto, deve o nosso olhar volver-se, mais atentamente, para os modos como Setúbal nele se integra.

Pg12
 


Setúbal em meados de oitocentos.

Economia e sociabilidade.

 

                                              “Cada manhã trazia a sua revelação, como um sol que fosse
      novo […]. Todas estas maravilhas caíam à maneira de achas
 numa fogueira, criando uma vasta crepitação e uma vasta
 fumarada! E ao mesmo tempo chegavam por cima dos
 Pirenéus, moralmente atrasados, largos entusiasmos
 europeus que logo adaptávamos como nossos e próprios”
 

 

 

A Regeneração – nome português do Capitalismo, como já alguém disse – chegou a Setúbal em 1855. Foi um período de acalmia política que permitiu a expansão industrial, financeira e mercantil, harmonizando os interesses comuns de industriais, banqueiros, comerciantes e proprietários urbanos e rurais, que o mesmo é dizer, da pequena, média e alta burguesia.

O Concelho de Setúbal foi ampliado com a junção dos de Palmela e Azeitão; o engenheiro inglês John Rennie elaborou os primeiros estudos sobre as obras do porto de Setúbal; surgiu a primeira associação mutualista – Associação Setubalense das Classes Laboriosas – e o primeiro periódico local – O Setubalense – por iniciativa de, entre outros, João Carlos de Almeida Carvalho (1817-1897).

As conservas de peixe, produzidas por métodos modernos, foram introduzidas na então vila pelos setubalenses Feliciano António da Rocha (?-1889) e Manuel José Neto (?-1896). O pioneirismo do primeiro destes foi reconhecido, aliás, na Exposição Universal de Paris, em 1855. No mesmo certame foram premiados, ainda, o sal e o vinho moscatel, produzidos na região. Registe-se, no entanto, que os vinhedos locais rapidamente começariam a sofrer os ataques do oidium.

Ao mesmo tempo, a elite[14] local organizou-se, fundou o Club Setubalense; abriu o Liceu Setubalense (1857), dirigido por António Maria de Campos Rodrigues (1832-1915) e o Liceu Municipal de Setúbal (1858).

Naquele mesmo ano de 1858, a 14 de Abril, a Câmara Municipal, interpretando certamente o sentir de vastos sectores da população, pediu ao rei “a graça de elevar” Setúbal, uma “grande povoação, à categoria de cidade”. Nos termos da petição, a vila da foz do Sado era “conhecida em toda a parte do mundo, pela extensão do seu comércio de sal, laranja, cortiça e cereais”. Por outro lado, contava “com perto de trinta mil almas” rivalizando, “em população e grandeza, com todas as cidades do reino, excepto Lisboa e Porto”[15].

Pg13
 

Depois da introdução do telégrafo em Portugal, ao tempo revolucionário meio de comunicação e transmissão de notícias de todo e para todo o mundo, da aprovação dos Estatutos da Companhia Nacional de Caminhos-de-ferro do Sul do Tejo (1855) e da laboração da primeira fábrica de conservas local, logo a 19 de Abril de 1860 Setúbal foi, por fim, elevada à categoria de cidade. Um ano depois (a 21 de Fevereiro) inaugurou-se a ligação ferroviária ao Barreiro. Os redactores do periódico O Correio de Setúbal tinham razões de sobra para rejubilarem:

 

 

“Por suas ruas estreitas, já se pode transitar, as praças estão embelezadas e limpas; as árvores cuidadosamente tratadas; o jardim do Bonfim no maior asseio; os edifícios e templos consertados e aumentados com a linda Capela da Piedade, edificada no cemitério do mesmo nome; o ramal tornou-a num bairro lindo de Lisboa e a alta munificência d’um rei elevou-a à categoria de cidade; e Setúbal, já muito importante, promete sê-lo ainda muito mais para o futuro”

[16].

 

A confirmar os augúrios d’O Correio de Setúbal, a 15 de Agosto de 1863 a jovem cidade de Setúbal viu as suas ruas iluminadas por meio de gás, quinze anos após a introdução de tal melhoramento na capital do Reino (1848).

Em 1866, o poeta e contista dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875) visitou demoradamente Setúbal e pôde ainda espantar-se com os “laranjais seguindo-se uns aos outros” que cobriam “todo o vale entre Palmela, S. Luís e a Serra da Arrábida para os lados do Oceano”[17]. Os laranjais de Setúbal, que em 1900 ainda tocavam os limites da cidade, em breve sofreriam, de novo, com diversas pragas (1867 e 1868, por exemplo) e os vinhedos seriam, uma vez mais, atacados pelo oidium (1871).

O tecido económico local dava mostras de alterar-se profundamente, pelo abandono ou decadência das produções tradicionais e pelo desenvolvimento conserveiro.

Após 1880, ano em que alguns industriais franceses chegam a Setúbal perseguindo a matéria-prima que começara a rarear nas costas da Bretanha (a chamada crise sardinheira francesa), aquele processo de alteração impõe-se definitivamente. A partir  desse ano a indústria conserveira setubalense estruturou-se e desenvolveu-se, a ponto de tornar-se quase única na cidade, conferindo à economia local o carácter monoindustrial que a caracterizaria, pelo menos, até meados dos anos 30 do século passado. Ao mesmo tempo, surgiram novas ocupações subsidiárias como, por exemplo, a latoaria, a caixotaria, a litografia, etc. Também a pesca se desenvolveu de modo a abastecer o mercado de peixe fresco e de preciosa matéria-prima a insaciável voracidade de um cada vez maior número de unidades de produção de conservas. A construção naval progrediu, consequentemente.

Tal surto de desenvolvimento deixaria marcas profundas no tecido urbano, demográfico e social setubalense que o tempo ainda não apagou de todo. Setúbal crescera

Pg14
 

 muito e desordenadamente, ao ritmo estridente e imperioso das sirenas das fábricas, que iam pontuando o horizonte com as suas altivas chaminés, erguidas sobretudo à beira-rio.

 

Os Cafés

Na impossibilidade de aqui nos referirmos aos múltiplos cafés que os setubalenses frequentavam no período que consideramos, seja-nos permitido deter a atenção, nossa e do leitor, sobre aquele que terá sido o mais emblemático de todos eles, a saber: o Café Esperança, casa referenciada, aliás, na obra de vários escritores locais e outros (Arronches Junqueiro, Manuel Envia, Fialho de Almeida…).

A 29 de Agosto de 1858, abriu em Setúbal uma casa de café e bilhar denominada Esperança, ainda que mais vulgarmente conhecida por “Lapido” – do nome do proprietário José Maria Lapido (?-1901). A partir de então os setubalenses e os forasteiros que aqui estadiavam passaram a dispor de um espaço diferente, no qual encontravam “todas as bebidas que apetecer, fornecidas por preços módicos e servidas com prontidão e esmerado asseio”[18]. O Café Esperança era um espaço de tertúlia incontestável, onde se abordavam os mais diversos temas, entre os quais as touradas, muito concorridas à época. Eis uma saborosa conversa, que podíamos reproduzir provinda de uma das mesas do Café Esperança, precisamente acerca de uma corrida de touros, por sinal, bastante contestada. Estávamos em 1889:

 

“Saímos da praça e fomos direitinhos ao Esperança (essa espécie de centro misto em que ora se acaloram os políticos cá da terra) para ali ouvirmos a opinião de gregos e troianos e, afinal, sairmos dali ainda mais convencidos de que a corrida tinha sido das mais inferiores que os olhos dos aficionados têm presenciado”[19].

 

Antes de quase presenciarmos a renovação por que, nos alvores do século XX, irá passar o Café Esperança, espreitemos o seu interior, na segunda metade do século XIX:

 

 

“…nesse tempo apresentava um sobrado muito lavado, mas sempre coberto com areia da Tróia. Os dois espelhos, de grandes molduras doiradas, resguardadas por tule cor-de-rosa, cromos representando mulheres orientais, em molduras ovais, também doiradas, o grande lustre de cristal, pródigo de pingentes prismáticos, onde o Sol ou o gás punham chispas irisadas através do inevitável tule que envolvia toda a parte não atingida pela chama dos seus bicos de leque”

[20].

 

Passemos agora à “sala do café, propriamente dita [que] era dividida ao meio por um grosso arco estucado, como o tecto de onde pendia o lustre”. Pelo espaço estavam dispersas “oito mesas com tampos de pedra, tendo cada uma, fosforeira de loiça do Porto com os extintos fósforos de enxofre”[21]. O antigo Café Esperança tinha, ainda, conforme o descreve

Pg15

 Arronches Junqueiro, “bancadas de madeira, imitando bambu, com assentos de palhinha, junto das paredes, e cadeiras do mesmo tipo, junto das mesas”[22].

Mas o estabelecimento, com concorrida frequência dos setubalenses, não estava destinado apenas à venda de café, pois havia nele uma sala onde podiam dedicar-se ao jogo de bilhares, de dominó, de gamão ou de damas[23].

A 4 de Julho de 1901, após restauros, reabriu o Café Esperança, propriedade de Lourenço & Lourenço[24]. Tinha agora duas espaçosas salas para bilhar e mesas, podendo rivalizar com qualquer estabelecimento da capital. O jornal local O Trabalho, na edição de 30 de Junho de 1901, comentava: “Com esta transformação desapareceu a fóssil divisão em classes, que cremos, só em Setúbal ainda se mantinha”.

Por meados da década de 1870 Arronches Junqueiro (1868-1940) ia ali, acompanhando seu pai que tomava “capilés no Verão e queijadas de Lisboa, por ocasião da feira que se estendia mesmo em frente ao Café Esperança, o Lapido, como então se chamava”[25]. É também Arronches Junqueiro quem nos revela a existência de um espaço paralelo, destinado a adega, “que era frequentada por gente do cais, carregadores, catraeiros, pequenos negociantes de peixe, frequência que passou para a taverna do Patrão João, ali perto”[26].

Mais tarde (1882-1883) inaugurou-se o Café Príncipe, na Rua da Praia, com esquina para a Rua das Farinhas [actualmente designada Rua Pereira Cão, em homenagem ao pintor e decorador setubalense José Maria Pereira Júnior (1841-1921)].

 

 

Os Passeios Públicos

 

O Passeio Público – “lugar privilegiado de sociabilidade das classes ascendentes” – tem vindo a ser considerado como “um dos símbolos de civilização burguesa oitocentista”[27]. Por quase todas as grandes povoações portuguesas entrava-se, por esta forma, “na era da vida social ao ar livre”, dando-se preferência aos “espaços abertos e arborizados à clausura dos palácios e das igrejas do Antigo Regime”[28]. O Passeio Público define-se “quer como lugar de domínio sobre o povo, quer como de comunhão entre pares”[29].
            O Bonfim.Não é este o lugar para traçarmos a história do actual Parque do Bonfim, cuja origem remonta ao tempo de D. Manuel I (1469-1521) quando o monarca terá adquirido e doado à população o, à época, denominado Campo da Barbuda ou Herdade da Barbuda[30]. Adentro deste campo viria a criar-se, nos inícios do século de oitocentos, um

Pg16

espaço público de lazer. Espaço público reservado, porém, aos melhores elementos da sociedade setubalense que denodadamente defendiam esse carácter exclusivo, restrito, elitista.

Em 1839 a Câmara Municipal mandou construir um bem arborizado jardim com um apreciado chafariz no centro, abastecido pelas águas do ribeiro que corria próximo[31]. Desde logo, tornou-se um lugar de selecta frequência. Em ocasiões especiais, ou aos fins-de-semana, uma banda – das muitas que no século XIX floresceram em Setúbal – marcava o ritmo aos passeantes e conversadores que se reuniam naquele aprazível recinto. Recorde-se que, em 1855, ali levantara “a Sociedade Momentânea o seu caramanchel chinês [delineado por José Cassar[32]], construído com primor e cujo gosto (…) oferecia o mais vistoso aparato”[33]. Em 1858, algumas damas setubalenses apresentaram à Câmara, uma reclamação pelo facto de a areia amarela que revestia o chão do Parque lhes enodoar os vestidos e saias, pedindo a urgente “reforma deste incómodo” que aumentava em dias de ventania e excesso de tráfego.

O Parque do Bonfim era, voltamos a dizê-lo, um local de privilégio para um estrato social definido da cidade de Setúbal, embora fosse, de quando em vez, visitado por pessoas que os frequentadores consideravam “incómodas” e que, de imediato, procuravam proscrever. Correndo o risco de nos desviarmos do propósito fundamental do presente trabalho, não resistimos a deixar aqui alguns exemplos que ilustram o que acima se diz. 

Assim, em carta de um leitor do jornal O Correio de Setúbal, datada de 23 de Abril de 1862[34], pode ler-se:

 

“Sr. redactor. Fui no domingo da Ressurreição, na forma do meu costume, tomar a fresca da bela tarde deste dia, ao nosso pobre, acanhado e único passeio, o jardim do Bonfim. Esteve bastante concorrido, e assim era de esperar depois de tão continuado e tormentoso tempo que sofremos; mas não se podia gozar da amenidade com aquela comodidade e satisfação a que temos direito em consequência de uma chusma de asquerosos garotos de pé descalço, que para aquele local foram fazer, com as suas cambalhotas no terreno, pulos por cima dos bancos, um inferno de poeira, pisando os vestidos de cada um [sic], destruindo as poucas flores que tem o jardim, e tornando por esta forma insuportável aquele aprazível sítio!

“Se V. concorda comigo para que no jardim do Bonfim se não continuem a dar as cenas que deixo ditas, que além de causarem incómodo e aborrecimento a quem ali vai, nos rebaixam a um estado selvagem, digne-se levantar a sua voz autorizada...

“Um seu assinante e constante leitor”

[35].

 

Mais tarde, o setubalense Arronches Junqueiro (1868-1940) recordaria essas “tardes do Bonfim” da segunda metade de oitocentos[36]. O autor rememora também a frequência do  Jardim nas “tardes de Verão (dias úteis)”, quando ali se juntavam os “seus hóspedes fiéis” os quais “eram sempre os mesmos, às mesmas horas, no mesmo passo, o que tornava desnecessário marcar lugar:

“Cada banco tinha a sua clientela. Ninguém ousava alterar este tácito

preceito, e, se algum forasteiro, ignorante do pacto setubalense, se apropriava de um

Pg17
 
 

 banco, era olhado com desamor, até com raiva, pelos que presenciavam o incrível desacato”[37].

 

Volvidos alguns anos, em 1866, transformou-se este jardim em um belo passeio público, “incontestavelmente um dos passeios públicos mais bem situados de Portugal”, segundo o testemunho do já citado Pinho Leal (1816-1884)[38]. No ano do alargamento do passeio público setubalense, o já por nós referido Hans Christian Andersen (1805-1875) passou um mês em Setúbal. No relato da sua estada na foz do Sado deixou escrito, sobre o Bonfim:

 

“…num grande passeio-jardim público fora da cidade, onde uma banda tocava ao domingo à tarde, havia bastante animação e muita gente, mas não tão viva e ruidosa como as outras meridionais. As boas madamas burguesas estavam sentadas, tranquilas e graves, nos bancos; os homens passeavam com mais vivacidade de um lado para o outro”

[39].

Pela mesma época escrevia-se, no primeiro número do periódico Jornal de Setúbal, num artigo a propósito das nossas praias: “… logo que Lisboa faça de Setúbal a praia do bom-tom o Passeio Alegre[40] ficará muito abaixo do nosso Bonfim”[41]. Enquanto tal não sucedia, os frequentadores assíduos daquele parque continuaram a sua luta contra a presença desagradável de qualquer outro elemento que não pertencesse ao restrito e selecto grupo, quer se tratasse de um “camponês armado d’um grande varapau com ponteira”[42] ou de “um devoto de capa envergada e bandeira em punho, pedindo esmola não sabemos para a festa de que santo”[43]. Estas aparições eram consideradas menos próprias “de uma cidade civilizada, principalmente no local e na ocasião em que se reúne a nossa melhor sociedade”[44].

Muito possivelmente para obviar a estas e outras intrusões não documentadas, o jardim foi “cercado de muro e gradeamento no ano de 1871”[45]. Refira-se, a propósito, que o grande campo do Bonfim era à época, ainda, lugar de pascigo de alguns animais e palco de manobras militares. O Código de posturas municipais que entrou em vigor a 1 de Julho de 1872, estabelecia que era

 

 

“…proibido transitar gado de qualquer espécie no Campo do Bonfim ou trazê-lo ali a pasto, com excepção dos carneiros e ovelhas do rendeiro das pastagens do dito campo e dos cavalos dos oficiais montados, quando os corpos vão nele fazer exercício”

[46].
Por estes anos, precisamente em 1878, a Câmara Municipal mandou erguer um novo coreto, ao que consta, no interior de um lago, entretanto ali formado[47].

Dez anos volvidos, em 1882, tinha o Bonfim novos e, ao olhar burguês, indesejados frequentadores:

“No Passeio do Bonfim costumam agora aparecer mendigos. Não se devem consentir. Seria bom até mandar para fora da cidade os que daqui não sejam. É

Pg18

possível que, sacudidos da capital, se abriguem a outras terras. Seria conveniente estabelecer o princípio: cada terra sustente os seus mendigos”

[48].         .

 

Em 1885, o agrónomo e veterinário municipal João António da Silva, num longo artigo publicado na Gazeta Setubalense[49], traçava do Bonfim um deprimente quadro: segundo este técnico, aquele campo era, então, um “baldio triste e monótono coberto de pasto grosseiro e degenerado” que desagradava ao “viajante ilustrado”. O “passeio público” setubalense estava condenado! Em 1887, a Câmara presidida por Machado Correia ainda procedeu ao ensaibramento do Jardim[50]. Porém, em sessão de 6 de Agosto de 1890 a edilidade decidiu “demolir o velho coreto do Jardim do Bonfim”[51]. A partir de então a decadência deste espaço de lazer acelerou-se e os lamentos na imprensa surgem frequentes. Setúbal tinha, entretanto, eleito já…

 

O Passeio da Praia(Actual Avenida Todi, lado Nascente).Em 1848 e 1849 decorreram os primeiros trabalhos que levariam à abertura da actual Avenida Luísa Todi. Então, a Câmara presidida por Jacomo Maria Ferro (?-1860) mandou terraplenar e calcetar toda a alameda, entre o quartel (baluarte de Nossa Senhora da Conceição) e a antiga ponte sobre o Ribeiro do Livramento[52].

Em 1873 era já o “bonito” e “muito apreciado” passeio da praia um espaço concorrido, no qual diversas senhoras exibiam “elegantes toilettes” enquanto que a banda de Caçadores 1 executava peças do seu repertório[53].

Em 1884, quando aquele espaço ainda servia como campo de exercícios do batalhão de Caçadores 1[54], discutia-se já, na Câmara e na imprensa local, a reconstrução da então denominada Rua da Praia

[55].

Um par de anos volvidos, o espaço bem arborizado era já “o mais belo da cidade”[56], numa altura em que o passeio do Bonfim atravessava um período de decadência, como vimos. A Rua da Praia era, nessa altura, muito concorrida já por “grande número de pessoas, tornando-se à noite ponto de reunião para muitas famílias”[57]. Os recentes frequentadores não tardariam a protestar, na imprensa, contra a presença de estratos inferiores da sociedade naquele espaço da jovem cidade. A convivência interclassista era impossível e as reclamações surgem violentas:

“Em nome da decência e da moral pública, pedimos que se obste a essa exposição indecorosa e sobremaneira indecente que todos os dias se faz nos bancos da alameda da Praia, em que a canalha ociosa pratica actos indignos de se descreverem”[58].

 

 

Pg19

Também “o rapazio” que parava na Avenida e ficava a jogar o chinquilho “como se estivesse nas hortas”, a roupa pendurada nas árvores a secar, o lixo acumulado ou as redes de pesca espalhadas no lado poente da Avenida eram alvo de críticas frequentes[59]. Atentemos num último exemplo, ocorrido nas vésperas de final da centúria de oitocentos quando “costuma[vam] sentar-se, nos bancos da Avenida Todi, algumas pessoas de aspecto miserável as quais, ali, se coçam e catam, lançando para o chão e para o banco alguns dos repugnantes insectos que as incomodam”. Pedia-se, então, uma actuação severa da polícia que devia “obstar à continuação do mal indicado”[60].

Regressemos, por momentos, a Julho de 1887 quando foi posta a concurso a construção do troço Poente da Avenida, compreendido entre a ponte do Livramento (nas imediações do mercado municipal do mesmo nome) e a dos Carmelitas, sobre o ribeiro de São Francisco (nas imediações da igreja de Nossa Senhora Anunciada)[61]. A Gazeta Setubalense, ao noticiar a obra, afirmava que esta “se fosse realizada como devia ser, seria decerto um embelezamento dos mais bonitos e agradáveis de Setúbal”[62]. O periódico citado, no entanto, considerava dever fazer algumas críticas, nomeadamente pelo facto de se ter repetido o mesmo problema da arborização da Estrada da Rasca, “velha e raquítica de diversos tamanhos e idades, com os troncos corroídos pelo parasitismo e todas elas enfezadas e doentes”[63].

Em 1892, o chamado aterro da praia concluíra-se de modo a receber edifícios. A questão estava, precisamente, em saber-se se devia ou não construir-se no dito aterro. A 7 de Setembro daquele ano, em reunião de Câmara, o assunto foi discutido. Aprovou-se ali o plano de construções e a abertura de ruas e de uma praça que deviam ocupar grande parte da área conquistada ao rio. Porém, na mesma reunião, um grupo de indivíduos apresentou um requerimento contra o aproveitamento do referido aterro, destinado a construção. Justificavam-se do seguinte modo:

 

“Os abaixo assinados, constando-lhes que a esta Ex.ma Câmara foi apresentado um plano para edificações na Avenida da Praia, entre o ribeiro do Livramento e o quartel, pedem a V. Ex.as que conservem o que ainda resta de um dos maiores encantos de Setúbal, qual é a vista do nosso grandioso rio, ao longo da extensa Rua da Praia, sendo este resto – para maior pena causar, se desaparecesse – em frente da parte mais bela e mais frequentada da cidade”[64]. O documento era assinado por vinte e cinco setubalenses conhecidos, entre os quais pontuavam duas senhoras (Maria Augusta de Oliveira V. Novais e Maria José Jales de Oliveira). Constavam dos assinantes da mencionada petição, curiosamente, cinco fundadores do Club Setubalense (pela ordem em que aparecem no documento: José de Groot Pombo, J. Nascimento de Oliveira, António Rodrigues Manitto, Joaquim Novais e João Carlos de Almeida Carvalho).

Pg20

Em Março de 1893 haviam-se iniciado já os trabalhos de construção de prédios na Avenida e a 28 de Agosto de 1895, após acesa polémica, o executivo camarário decidiu atribuir a designação de Avenida Luísa Todi, à antiga Rua da Praia[65].

No ano de 1897 a Câmara Municipal de Setúbal, presidida por José Maria da Silva, procurava meios para a aquisição de um “novo coreto de ferro e alvenaria, para o passeio da Avenida Todi”[66] que era, então, “o passeio (…) mais frequentado da cidade” e encontrava-se em estado considerado lastimoso[67]. Ao mesmo tempo, por proposta do vereador Eduardo Fernando Barbosa (1865-1904), em reunião de 7 de Julho de 1897, resolveu-se que as novas ruas do aterro ganhassem os topónimos de “Barão do Vale”, “Teotónio Banha”, “Silvestre Serrão”, “Santos e Silva[68], “António do Nascimento”, “Cláudio Lagrange” e bem assim que a nova praça aberta por este mesmo tempo, se denominasse “Praça do Comércio”[69].

Entretanto, em 1898, os aforamentos de terreno para construção continuavam…[70].

Em Abril de 1910 começaram os trabalhos de ajardinamento do centro da Avenida, entre o quartel do Regimento de Infantaria 11 e o Mercado do Livramento. Era um projecto, todavia, simples e barato, com relva, palmeiras e bancos[71].

A Avenida, porém, não perdera o cunho elitista que lhe fora conferido desde a abertura ao público. Atentemos nestas linhas do escritor setubalense Augusto da Costa (1899-1954), colocadas no início do texto ficcional intitulado “Idílio. Cenas contemporâneas”, publicado no jornal setubalense A Voz da Mocidade, de 2 de Dezembro de 1915: “ Setúbal, 9 horas da noite: Pela Avenida passeia a fina-flor da sociedade. A música toca. De muitos pares elegantes que por ali pululam, um me chama a atenção…”[72].

 

 

O Passeio do Lago (antigo Parque das Escolas, actual Largo José Afonso).“É pequeno, mas bonito!” – Eis como Pinho Leal (1816-1884) descreveu o Passeio do Lago, espaço urbano de lazer aberto ao público, em Setúbal, no ano de 1870. Aquando da sua construção, presidia à Câmara Municipal de Setúbal o Dr. António Rodrigues Manitto (1819-1906).

O Passeio do Lago, também designado por Passeio da Praia, ficava, segundo o descreve Arronches Junqueiro (1868-1940), “quase à beira do Sado” e

 

“…representava um delicioso oásis, no meio daquele areal que era a chamada Praia do Seixal”[73]. Definindo o centro deste novo local de fruição pública, estava um “lago circular d’onde [partiam] seis bonitas e bem assombradas ruas. Em volta do lago, há bastantes árvores, a maior parte eucaliptos”[74].
 

Recorramos, uma vez mais, ao manuscrito de Arronches Junqueiro para, com outra riqueza de pormenores, sabermos como fora organizado aquele local:

Pg21

“…consistia num vasto hexágono, tendo ao centro um grande lago circular, circundado de um largo passeio, com bancos.

“Cortavam este hexágono seis largas avenidas, ladeadas por altas paredes de giestas brancas (piorno branco).

“Os sectores eram preenchidos com arvoredo, assim disposto: ao Norte, pinheiros; nos de Poente e Sul, plátanos; no[s] do Sul e Leste, amoreiras.

“Junto a uma das avenidas, a do Norte, existia um marco fontenário.

“Do jardim avistava-se o rio, delicioso de cor, até às dunas de Tróia povoadas de giestas brancas. Uma das suas ruas dava acesso a um estabelecimento [com pavilhão e barca de banhos[75]], denominado Cais do Trindade, nome do seu fundador e proprietário”[76].

 

Infelizmente, esta idílica descrição do Passeio do Lago cede rapidamente o lugar a uma observação crítica do autor:

 

“Este jardim teve logo de princípio má sorte. A Câmara que o organizou consentiu que, num dos seus sectores (do Nascente e parte do Sul) se instalassem as caldeiras de alcatroamento das redes de pesca, e o seu respectivo material”.

(…)

“Ranchos de pescadores ali passavam os dias, cosendo as suas redes, enquanto outros iam carregando aos ombros, numa grande fileira a um de fundo[77], as redes novas para as tinas de alcatrão, existentes à sombra das árvores do Passeio do Lago[78].

“Este tráfego produzia os estragos que se podem supor; as árvores, servindo de amarração, estavam feridas e alcatroadas; o chão revolto, quase intransitável. Para se atingir o Passeio do Lago era preciso saber andar sobre as redes, que estavam constantemente estendidas. Quando elas eram de malha miudinha, ia bem. Mas quando as malhas eram largas, os trambolhões eram frequentes, com todo o seu cortejo de ridículos, quando a nota triste de uma fractura ou luxação não mudava o ridículo em tragédia. “O Passeio do Lago passou a ser frequentado por um ou outro passeador ferrenho ou, no tempo dos banhos, pelos forasteiros que em grande número frequentavam Setúbal. “Não se limitava às caldeiras de alcatrão, a má sorte do Lago. Foi autorizada a construção de prédios à volta do jardim, nas partes nascente, sul e poente. Ali ficou emparedado, sem ar, sem horizontes, sem beleza, com aspecto de quintal, mal cuidado, de casa burguesa…”[79]

 

Em algum tempo anterior à mutilação daquele espaço, assinalada por Arronches Junqueiro, fora “uma deliciosa estância, cheia de bom gosto e de suavidade”[80], depressa alterado por uma nova utilização: a semeadura de forraginosas para o gado municipal, enquanto, por outro lado, a polícia parecia impotente perante o desaforo de alguns cidadãos que insistiam em lavar os pés no lago central do Passeio[81], parece que alheios à tentativa municipal de dignificar cada vez mais o local, fazendo crescer ali um palmar que se esperava vir a ser “um encanto e uma raridade”[82].

O Passeio do Lago que fora um aprazível local de veraneio acabou, enfim, por ser suplantado pela profusão de fábricas de conserva de peixe que, conforme os relatos coevos, trouxeram mau cheiro e moscas[83].

Pg22

“O ambiente tornou-se nauseabundo, sufocante de fermentações pútridas, misturadas à fumarada das caldeiras de cozedura.

“A mosca invadiu tudo. O rapazio tomava a seu cargo olear os bancos e esculturar, à ponta de navalha, todo um mundo de obscenidades. E tudo isto sob o olhar benévolo e tolerante da polícia da municipalidade e da Direcção de Saúde.

“Com estes ataques, as árvores foram enfezando. Morrendo aos poucos. O Passeio ficou em poucos anos, reduzido ao lago, onde acabava de apodrecer um resto de água esverdeada, para dar lugar a um vasto repositório de todas as imundícies mais abomináveis”[84].

 

De grande monta terá sido, ao longo dos tempos, o cruel tratamento dado às plantações do Passeio do Lago (bem como, por certo, em outros locais da cidade). É pois, por isso, que em 1899 se relembrava a necessidade de se cumprir o Código de Posturas Municipais que proibia o “pejamento dos lugares públicos e danificação de arvoredo”[85].

Ao Passeio do Lago

 

“…restava ainda o pinhal. Árvore resistente, o pinheiro erguia-se, altivo, desafiando os anos. Pois nem eles ficaram! Um dia o machado municipal deitou por terra esse trecho tão interessante, para o ajardinar com uma placa de amores-perfeitos e melindres, do mais ridículo maneirismo.

“Custou, mas conseguiu-se o arrasamento desse pobre Passeio do Lago, desse pobre passeio que nunca chegou a ver passeantes, nem músicas nem festas, e que só o procuraram para lhe vibrar golpes de extermínio”[86].

 

De novo, em 1900, o olhar de setubalenses atentos lamentava o estado em que se encontrava o Passeio do Lago

 

“…que podia ser um dos mais aprazíveis da cidade por estar muito bem delineado e situado, mas que não passa[va] de um imundo depósito de artigos de pesca e petrechos de embarcações”[87].

 

A vereação lá tentou

 

“…fazer umas obras que, apesar de muito necessárias, pouco ou nada melhoram o estado vergonhoso em que se encontra[va] todo o passeio”[88].

 

Pelas anotações que o jornalista Luís Silveira fez sobre o manuscrito de Arronches Junqueiro, que vimos citando, sobre o Passeio do Lago, lembramo-nos que


“…ali foi realizada, com notável brilho e foros de acontecimento local, a primeira Exposição Regional do Distrito de Setúbal”, aberta em 27 de Julho de 1930[89].

 

A Colónia Balnear. Em finais de oitocentos (1876) Ramalho Ortigão (1836-1915) escrevia numa das suas “farpas”:

 

“As praias de banhos são um divertimento de Verão. A questão hidroterápica é por via de regra um simples pretexto para a peregrinação das famílias alegres em sítios frescos.

Pg23

“O campo e a praia, o ar do monte e o ar do mar são efectivamente universal panaceia para as moléstias endémicas das grandes cidades, para as nevroses dos excitados de todas as espécies, para as anemias dos fatigados de toda a ordem, para os doentes de todos os abusos do trabalho ou do prazer”[90].

 

A vila de Setúbal, situada na foz do Sado e dispondo, portanto, de aprazíveis praias de rio e de mar não ficou imune à moda dos banhos de água salgada, vulgarizada após 1840. A vilegiatura marítima (uma invenção inglesa de setecentos) impôs-se entre nós como método profilático e como tratamento dos mais diversos males físicos. Impôs-se, também, como forma de valorização social da alta e média burguesia. Então, as praias de banhos da foz do Tejo e as de todo o litoral, desde Setúbal até Âncora, enchiam-se de banhistas.

As praias setubalenses de meados de oitocentos eram seis. De nascente para poente identificavam-se a “Praia das Fontaínhas”, entre a Estrada da Graça e o baluarte de Nossa Senhora da Conceição (quartel militar); a “Praia da Ribeira”, entre o dito baluarte e o Ribeiro do Livramento (ou seja, a zona onde hoje se inicia a Av. 22 de Dezembro); a “Praia do Cadoz” ou “Praia da Caniceira”, entre este ribeiro e a Praça Teófilo Braga; a “Praia do Seixal”, entre esta última Praça e o Largo Marquês de Pombal; a “Praia da Saboaria”, entre o último referido Largo e a Quinta da Saboaria (ao funda da actual Av. Luísa Todi) e, por fim, a “Praia da Saúde” ou “Praia de Troino”, entre a dita Quinta e a Casa da Saúde.

Em 1907, no periódico setubalense A Mocidade, J. C. T. [isto é, João Manuel da Costa Teixeira (1897-1968)], na coluna “O Repórter”, invocava em verso algumas destas praias:

 

“Ou de bote, ou sobre a areia,

Esteja ou não a maré-cheia,

Vendo as meninas nadar

E o seu banho a tomar,

Todo eu agora sou mar.

Horas lá passo a flanar.

 

“Na minha praia, Seixal,

Me divirto menos mal.


“Eu no valente baloiço

Quasi me transporto a Tróia,

E venho agarrar-me à bóia

Rindo do que vejo e oiço.

Ou então, vou à Saúde

Com toda a minha família,

Na linda canoa Emília,

       Que é tão boa!

Vai o Toy sentado à proa.

       O grande cão…

Que nos dá um trabalhão.

Pg24

“Mas, no Seixal é mais chic,

Com grande toldo e bom cais,

Bóias, barcos, tudo o mais

Que alguém apetecer queira.

Das estações balneares,

Por certo é esta a primeira.

E para prova do que digo

Já é rica a bilheteira”[91].

 

Já em 1857 O Setubalense, periódico criado dois anos antes, clamava pela falta de polícia “no sítio mais frequentado dos banhistas, onde não só” apareciam “indivíduos nus ou de uma maneira o mais indecente, mas até se” apresentavam “brutalmente no meio das famílias honestas que ali” concorriam, “fazendo algazarras e dizendo ditos que muito” escandalizavam[92].

De onde vinham estas “famílias honestas” a que se refere o periódico fundado por Almeida Carvalho (1817-1897)? Vinham de Lisboa e de seus arredores, vinham do Alentejo e da Estremadura do país vizinho. A Gazeta Setubalense, em 1870, esclarece-nos, de forma humorística:

 

“É grande a concorrência dos nossos vizinhos de Espanha a esta cidade!

“Trazem elementos irresistíveis para levarem a efeito a União Ibérica, o que tem posto em sobressalto muitos setubalenses.

“Não se ouve o troar das metralhadoras; a guerra é feita sem estrondo, mas há por aí muita gente ferida no coração e, de envolta com o murmúrio do Sado, ouvem-se muitos suspiros, mal reprimidos”[93].

 

Cinco anos depois, em 1875, foi lançada ao rio uma barca de banhos denominada “Princesa do Sado”[94]. A mesma Gazeta referia-se assim ao acontecimento:

 

“No dia 31 do corrente mês será lançada às águas do Sado a elegante barca Princesa do Sado, perfeitamente construída sob a direcção do seu proprietário o Sr. José Maria Mendes. A barca está muito bem dividida em ordem de classes, atendendo-se na disposição dos seus compartimentos o decoro e o pudor e proporcionando-se a maior comodidade.
      “Oxalá que o Sr. Mendes veja coroados os seus esforços e obtenha o melhor êxito da sua inovação, que é mais um incentivo para chamar a Setúbal maior número de banhistas”[95].

Em meados e finais do século XIX havia ainda em Setúbal um outro estabelecimento de banhos, junto ao actual Largo José Afonso, conhecido por “barraca do Trindade”. Já nos referimos a este estabelecimento ao escrever sobre o Passeio do Lago. A sua frequência inspirou a alguém versos de tom jocoso, publicados nas páginas da imprensa local e que aqui deixamos registados.

Pg25

O primeiro deles é da autoria do polígrafo Alberto Pimentel (1849-1925), responsável pela elaboração da Memória sobre a história e administração do município de Setúbal, editada em 1877. É assim:

 

A uma espanhola

(segunda prova de concurso a poeta realista)

 

“Quando tu chegas radiante, bela,

De manhã à barraca do Trindade,

Sente-se o riso, a graça, a mocidade

Pairar no céu azul, como uma estrela.

 

“No teu olhar o fogo da procela

Esmorece num raio de saudade…

Visão feita d’aurora e tempestade,

Pulsa em ti toda a alma de Castela.

 

“Quando entras no mar, calcando a areia,

Beija-te os pés a onda do oceano

E foge receosa da sereia…

 

“A turba aplaude com prazer insano,

E tu sorris de todos c’o a ideia

De que te lavas uma vez por ano”[96].

 

O prolixo escritor não ficou sem resposta. Se ele dedicara versos a “uma espanhola”, Cunha Moniz dedicou os seus “a uma alentejana”:

 

A uma alentejana

 

“Só quer a primavera do teu rosto,

matar o coração do desgraçado…

quem se disser por ti apaixonado,

some pr’a sempre a fronte no desgosto!

 

“Dês que te vi que vivo apaixonado!

inconstante o pensar sempre em ti posto!

nem para as musas eu já tenho gosto,

nem sei que o possa haver sem ser-se amado!

 

“Se ao longe te diviso as formas belas,

mais belas que uma flor lá das Antilhas,

meus olhos não mais se tiram delas!

 

“Pareces-me surgir das maravilhas!

pareces-me descida das estrelas!

lembras-me assim um paio com ervilhas!”[97].

 

 

Em finais de 1901, o periódico setubalense O Sul podia noticiar:

 

“Os Srs. Drs. António [Carlos Botelho] Moniz, Luís [Teixeira de Macedo e] Castro e Jorge [Fernandes] Gomes constituíram-se em comissão para promover a

 

Pg26

 subscrição do capital necessário para a fundação do estabelecimento de banhos que projectam construir na praia de Troino”.

 

Segundo o mesmo periódico, a planta do novo estabelecimento fora “feita pelo arquitecto Sr. Ventura Terra[98]” e satisfazia “a todas as necessidades de conforto, decência e higiene”[99]. Estimava-se em 11 000$000 o capital necessário para o empreendimento.

Em 1902 era já possível à Empresa Setubalense de Banhos, entretanto criada, organizar um passeio fluvial à Arrábida, no vapor Sado, que rebocaria algumas barcas pelo preço de 500 réis (ida e volta). No Portinho, tinha a Empresa “barracas portáteis” onde podiam receber-se os banhistas[100].

Pela mesma altura, a Empresa leiloava as “barracas de madeira, wagons, bote e guincho” que possuía no seu estabelecimento situado na Praia do Seixal, a fim de que ficasse desobstruído o local em que pretendia “começar a edificação do novo estabelecimento balnear”[101].

O novo estabelecimento abriu parcialmente ao público a 10 de Agosto de 1903.

A Empresa Setubalense de Banhos foi dissolvida em 1913.

Outros estabelecimentos do género existiram em Setúbal. Em 1903, Francisco Pereira da Silva dera entrada no Conselho de Obras Públicas de um requerimento para que lhe fosse concedido em Albarquel, por 10 anos, um terreno para um estabelecimento balnear que projectava construir. O seu desejo foi satisfeito e as novas instalações abriram ao público a 10 de Agosto desse mesmo ano[102].

A 1 de Julho de 1906 abriu o estabelecimento de banhos “Flor do Sado”. Era, segundo um anúncio que temos presente, o “antigo e muito acreditado estabelecimento balnear da Maria Joana, posteriormente dirigido por José Jorge”, e que agora pertencia a Virgínia de Jesus Oliveira e a José Ribeiro de Oliveira. Pela mão dos novos proprietários, beneficiara de “grandes melhoramentos, achando-se habilitado para satisfazer as exigências dos Srs. banhistas, tendo além de experimentados banheiros, todas as comodidades e sendo  bastante módicos os preços”[103]. Este estabelecimento voltaria a ser anunciado, pelo menos, até 1909.

Entretanto, a estrutura económica de Setúbal modificara-se, como vimos. As fábricas de conserva impuseram-se, completou-se o aterro da Avenida e as praias de Setúbal foram desaparecendo. Em 1918, o periódico local O Setubalense lamentava-se já:

 

“Agora os bons banhos higiénicos e puros só se conseguem lá para longe, em sítio afastado do foco imundo das fábricas de conserva (…). Os banhos do Sado [eram agora] aprazíveis quando tomados lá na pitoresca Albarquel, cujas águas transparentes não recebem cabeças podres de sardinhas”[104].

Pg27 - 28 - 29
Os Clubes e a Sociedade Oitocentista. Breves definições
 

Tentemos, neste passo, antes de mais, estabelecer a origem do vocábulo club

Assim, a palavra que foi introduzida no vocabulário inglês, designando um bastão grosso e pesado utilizado para agressão pessoal, fora tomada do norueguês arcaico klubba

A transição do vocábulo para designar algumas das actuais agremiações, deve-se à associação com a imagem de dar forma à massa de dois elementos que entram na formação do extremo do bastão.

A palavra club, já com o actual significado aparece registado, pela primeira vez, numa passagem de um texto datado de 1674, da autoria de Nathaniel Fairfax, intitulado The bulk and selvedge of the world

O autor afirma ali que “Two such worlds must club together and become one (esses dois mundos devem unir-se e formar um só). A palavra Club aparece aqui com a significação de “unir-se”, “juntar-se”.

Na região de Londres, em pleno século XVII, o vocábulo ganhou forma verbal, com o sentido de “estar juntos”, numa taberna. Rapidamente, porém, ganhou mais ampla aplicação, passando a designar uma instituição formal e regulamentada.

Esta é, pois, uma razão mais para asseverar que os clubes, na acepção moderna e sob a forma verbal que os designa, nasceram em Inglaterra, na época isabelina, ou seja, entre os anos de 1559, aquando da coroação de Isabel (1533-1603) e da subida ao poder, em 1642, de Oliver Cromwell (1599-1658). 

Muito rapidamente, porém, vemo-los aparecer fora das fronteiras inglesas, sendo conhecidos pela França revolucionária, em 1789. Em Portugal, desde os finais do século XVIII, proliferaram associações secretas nas quais alguns já viram influências desses clubes estrangeiros.

Os clubes foram um espaço e uma forma típicos da sociabilidade burguesa oitocentista. Na definição de Maurice Agulhon, foram a “associação de homens organizados para praticarem em comum uma actividade desinteressada (não lucrativa) ou, mesmo, para viverem em comum a não-actividade ou lazer”[105].

Antes de irmos adiante, julgamos da maior importância lançar alguma luz sobre conceitos ou noções já empregues. Que entendemos por sociabilidade? O que é o lazer?

A sociabilidade, essa marca tão característica do temperamento meridional, é a


“…aptidão geral dos indivíduos (e dos grupos) para viverem de modo mais ou menos intenso as variadas relações que se estabelecem em qualquer sociedade organizada, aceitando regras de convivência e alienando uma parte da sua liberdade pessoal”[106].

Pg30

Exprime-se, entre outras formas, pelo lazer

 

“…conjunto de ocupações às quais o indivíduo se pode dedicar livremente, por repouso, por divertimento ou para desenvolver a sua formação desinteressada, a sua participação social voluntária ou a sua livre capacidade criadora depois de se ter libertado das suas obrigações profissionais, familiares ou sociais”[107] – e exprime-se pela festa – que “rompe com as normas, os ritmos e os ritos do quotidiano, subvertendo-os (ainda que parcialmente) e funcionando como uma válvula de escape para o peso, a rotina e a monotonia do dia-a-dia”[108].

 

Voltando atrás, temos que acrescentar que a frequência dos clubes pressupõe um certo desafogo económico, pressupõe algum bem-estar. Desde logo, há que arrendar um local para sede social da agremiação; há que pagar a iluminação, o aquecimento (se for caso disso), e a assinatura de jornais; depois, há que pagar as “jóias” e as quotas, os jogos, as bebidas… A frequência dos clubes pressupõe, ainda, algum vagar, disponibilidade de tempo. Pressupõe o ócio.

Esta forma de viver o tempo livre não é uma actividade inóqua. Pelo contrário, reveste-se de características bem complexas: Contribui para a morosa construção de identidades, implica a consciencialização de necessidades e prazeres, possibilita a efectivação de trocas materiais e simbólicas e detém um “carácter terapêutico”[109].

De uma forma bipolar de fruição do tempo (tempo de ócio/tempo de negócio-trabalho) surgiu, na centúria de oitocentos, um modo novo, sumptuário, de consumi-lo, como “uma das formas de a burguesia patentear a sua diferença”[110]. Abandonava-se, assim, a perspectiva utilitarista segundo a qual o ócio era apenas o “recreio e desafogo dos trabalhos da vida”, unicamente legítimo enquanto restaurador das energias a aplicar “na sua negação (o negócio=trabalho)”[111]. A multiplicação de manifestações públicas e/ou privadas de ocupação/consumo do tempo livre, valoriza uma nova abordagem e revela a disponibilidade (de tempo, logo de dinheiro) da burguesia ascendente. Voltando a citar M. L. Lima dos Santos,

 

“…o consumo sumptuário ligado ao ócio vai aparecer, então, como uma das formas de a burguesia patentear a sua diferença relativamente aos que não lhe têm acesso; enquanto o zelo pelo trabalho fora uma das formas por que se demarcara relativamente à nobreza ociosa”[112].


 

Pg31 - 32
O Club Setubalense.
 

Antecedentes. A Sociedade de Recreio Familiar foi criada em Setúbal, em 1850, com o objectivo de promover o convívio e, como o próprio nome deixa adivinhar, o recreio entre os associados e suas famílias. No elenco dos fundadores do grupo identificam-se facilmente os nomes de algumas das figuras primeiras da sociedade setubalense de então:   João Henriques Simas; Ladislau José Monteiro de Barbuda, provedor da Misericórdia; António do Nascimento e Oliveira, pianista e organista na igreja de S. Julião e pai do renomado músico Frederico do Nascimento (1852-1924); José António Marques, cirurgião-mor do Regimento de Caçadores 1; António José Ligeiro Lima; Olímpio José Gomes Torres; João José Pacheco e José de Oliveira Perdigão, médico. Há, ainda, a referir quatro nomes que voltaremos a encontrar na fundação do Club Setubalense e de quem adiante trataremos mais detidamente: João Inácio da Cruz Forte, Joaquim da Costa Novais, Manuel José Vieira Novais e José de Groot Pombo.

A Sociedade de Recreio Familiar manteve-se activa até 1855, ano em que deu lugar a um mais arrojado projecto, qual seja a criação do Club Setubalense.

 

A fundação.Em 1855, precisamente no ano em que, segundo a expressão de Latino Coelho, Portugal entrou no “congresso das nações industriais”[113], a 12 de Novembro, numa sala dos Paços do Duque, na então ainda vila de Setúbal fundou-se o clube cuja história procuramos traçar no presente trabalho.

O Setubalense – um dos dois periódicos que então se imprimiam na localidade[114] – noticiou o facto numa breve nota intitulada, justamente Club Setubalense e na qual se pode ler:

 

“No dia 12 deste mês instalou-se nesta vila a sociedade que tomará a denominação de Club Setubalense. Grande número de cavalheiros já concorreram a associarem-se e no dia 14 aprovaram-se os respectivos Estatutos que vão receber a aprovação do Governo”[115].

 

Foi então eleita uma Mesa Provisória composta por João Inácio da Cruz Forte – presidente, João Maria de Lima e José d’Oliveira Perdigão – secretários. Nomeou-se, ainda, uma Direcção interina, composta por António Rodrigues Manitto, Francisco Maria Cabral d’Aquino e Joaquim da Costa Novais.

O Club Setubalense estabeleceu-se no palácio dos Paços do Duque, actuais instalações do Governo Civil de Setúbal.
 

Pg33
 

A 9 de Julho de 1856, por Carta Régia, D. Pedro V (1837-1861) aprovou os Estatutos do Club Setubalense, tendo em conta “que o fim de semelhante associação” era o “recreio honesto das famílias dos indivíduos que a compõem”[116].

Efectivamente, o Art.º 1.º do citado documento estabelecia, claramente, que:

 

“…o fim do Club Setubalense é a honesta convivência dos sócios. Esta associação não poderá ser, em caso algum, órgão de objectos políticos e religiosos”[117].

 

Os sócios podiam ser “ordinários” ou “extraordinários”. Os primeiros, que não podiam ser mais que em número de 50, pagariam uma jóia de 4$000 rs. (sendo fundadores) ou de 9$000 rs. (não sendo fundadores), os segundos, em número ilimitado, pagariam 800 rs. por mês[118].

 

“É admissível à associação do Club todo o Português ou Estrangeiro que, pertencendo a uma família decente, gozar de boa reputação civil e moral” (Art.º 4.º)[119]

 

Entretanto, a novel agremiação iniciara já as actividades no referido segundo andar do edifício dos Paços do Duque.

Sigamos, uma vez mais, o relato de O Setubalense

 

“No dia 1.º deste mês abriu-se o Club Setubalense

“É a primeira vez que Setúbal tem uma distracção desta ordem tão em moda e agradável à boa sociedade.

“Desejamos-lhe dilatada vida, porque esperamos que ele seja um centro de amigas e festivais reuniões, um veículo para entreter cordiais e sinceras relações, um antídoto contra perniciosos enredos e ridículas cizânias[120] um meio não só de apagar arrufos e amuos, se não de fazer esquecer passadas dissenções e, finalmente, um gérmen de civilização para a nossa terra”[121].

 

Os Fundadores. Perante a inexistência de documentação que nos forneça elementos sobre todos os primeiros sócios do Club Setubalense, limitamo-nos a apresentar quando possível, alguns dados biográficos dos iniciadores deste tão arrojado projecto. Para alguns deles, lamentavelmente, só conseguimos obter o nome: Moreira de Brito, Henrique Augusto Carvalho Paiva e Silva, Marques de Sousa, Joaquim Viana e António Pereira da Silva Perdigão[122].

 

João Inácio da Cruz Forte. São escassos os dados biográficos acerca deste fundador. Ignoramos mesmo as datas e os lugares de nascimento e óbito. Ainda assim, reunimos breves elementos que, julgamos, permitem caracterizá-lo socialmente.
 

Pg33
Foi Director da Alfândega de Setúbal. Em 1850 conta-se entre os fundadores da Sociedade de Recreio Familiar que se instalou e montou um pequeno teatro numa casa de rés-do-chão que antigamente fora a Ermida de Nossa Senhora do Livramento[123]. Naquele pequeno teatro Cruz Forte revelaria os seus dotes de amador dramático.
Desempenhou o cargo de provedor da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal durante os biénios de 1853-1854 e 1854-1855[124].

Segundo o testemunho de João Carlos de Almeida Carvalho (1817-1897), Cruz Forte pertenceu a uma loja maçónica instalada em Setúbal, em finais de 1858, ou inícios de 1859, por iniciativa de António José Baptista Hentze[125], de que era, de acordo com o fundador do jornal O Setubalense, “irmão venerável”[126]

Em 1876, de parceria com João José Soares (1819-1897) elaborou o Regulamento do Asilo da Infância Desvalida, então fundado. O documento definia o funcionamento da Instituição desde a educação ao vestuário, aos horários e disciplina, aos castigos e, ainda, ao comportamento das asiladas e das empregadas.

 

João Maria de Lima. Deste membro fundador do Club Setubalense apenas sabemos ter sido Juiz de Paz. Em 1837 entrou para a Misericórdia e, a partir de 1843, desempenhou assiduamente cargos administrativos naquela instituição[127]

 

Joaquim da Costa Novais. Foi grande proprietário em Setúbal, sendo dono de inúmeras moradias na zona de Algodeia, nas imediações do actual Parque do Bonfim. Terá nascido no ano de 1823, sendo certo que veio a falecer em 1891.

Conforme o relato d’O Distrito, na noite de 25 de Fevereiro daquele ano, depois das 22 horas, Costa Novais participava numa reunião da Empresa de Recreios Setubalense, quando foi acometido por uma congestão cerebral, vindo a falecer pelas 4 horas da madrugada do dia 26. Consta ter tido o seu funeral “grande pompa e assistência”[128].

Em 1850, contando, portanto, 27 anos, foi um dos fundadores da Sociedade de Recreio Familiar, a que já nos referimos.

Esteve ligado ao poder local (em 1874, por exemplo, era vereador) e a várias comissões de melhoramentos locais (1874, 1880).

Em 1885 foi eleito, a par do proprietário Francisco Joaquim Soares Gomes, como suplente do colégio distrital, incumbido de eleger quatro pares do reino. Em 1886-1887 era considerado um dos maiores 40 contribuintes, na área predial.


 

Pg34
Manuel José Vieira Novais. Desconhecemos as datas de nascimento e morte deste proprietário local. 
Em 1850 encontramo-lo também entre os fundadores da Sociedade de Recreio Familiar. Terá pertencido à loja maçónica a que já nos referimos, criada em Setúbal no ano de 1858 ou inícios do ano seguinte.

Foi casado com Maria Augusta de Oliveira (1832-1908), de quem teve, ao que foi possível apurar, duas filhas: Maria da Piedade Novais (1853-1870) e Maria Augusta Novais Sarmento.

 

José do Nascimento e Oliveira. Este capitalista, negociante e proprietário, era filho do farmacêutico Manuel José do Nascimento e Oliveira e terá nascido em 1824, se tivermos em conta que tinha 72 anos quando uma angina pectoris o vitimou, a 13 de Abril de 1896.

À data da morte, José do Nascimento e Oliveira era agente em Setúbal do Banco de Portugal e do Banco Comercial de Lisboa e, ainda, vice-cônsul dos Estados Unidos do Brasil[129].

Entretanto, em 1850, o seu nome aparece ligado à já referida Sociedade de Recreio Familiar. Além de representar, era instrumentista na orquestra daquela associação.

Terá integrado a loja maçónica já por diversas vezes aqui chamada à colação.

Em 1879 era secretário da Associação Comercial. No ano de 1882 aparece como sócio sénior da firma J. Nascimento & Oliveira. Então, com José Gonçalves da Cunha (1844-1914) e Augusto Júlio (1844-1906), entrou na constituição da sociedade Cunha & Companhia para a exploração de uma fábrica de conservas arrendada ao pioneiro da indústria conserveira setubalense Feliciano António da Rocha (? -1889).

Em 1884-1885 foi presidente da Câmara Municipal de Setúbal.

 

António Rodrigues Manitto. “Como homem particular uma pérola, uma jóia, que pouca gente sabe avaliar. (…) Nas ruas um carrancudo, metendo medo a mais de sete. Serviçal, amigo de seu amigo, ninguém [havia] mais leal, mais sincero”, assim Leonardo Duarte Júnior (1859-1915) assina, sob o pseudónimo “Leo Nardo”, no jornal setubalense O Elmano, um testemunho sobre A. R. Manitto[130].

Manitto nasceu em Coimbra, na Freguesia de Santa Justa, no dia 19 de Fevereiro de 1819 e faleceu a 18 de Janeiro de 1906, na sua residência, à Boa Morte, contígua ao Largo de São Caetano, antigamente Rossio de São Caetano, actualmente correspondente a áreas da Avenida dos Combatentes. Então, em reunião da Assembleia-geral do Club Setubalense

Pg35
realizada a 10 de Fevereiro de 1906, João António da Costa Leal[131], presidente da Direcção, referiu-se “em termos muito sentidos, ao passamento do (…) consócio Dr. António Rodrigues Manitto, enaltecendo, com justificados motivos, os elevados dotes do ilustre extinto”. Também o secretário da Assembleia, João Maria Cardeal Rocha[132], se associou “de todo o coração”, ao funesto acontecimento “lamentando que a Assembleia não [estivesse] mais numerosa, a fim de que esta homenagem, justa e sincera, fosse mais condigna da individualidade, cuja perda, com íntima mágoa”[133], registava. 

Formado em Medicina, em 1844, pela Universidade de Coimbra, foi nomeado guarda-mor da Repartição de Saúde do porto de Setúbal, tomando posse a 15 de Julho de 1845. Foi casado com Maria Rita da Assunção Pacheco[134]. O casal teve duas filhas: Palmira Augusta Manitto (1858-1892) e Helena Rosa Manitto – que veio a falecer, com apenas 17 anos, em 1887.

Rodrigues Manitto casou em segundas núpcias, em 22 de Dezembro de 1889, com Paulina Rosa Ferreira Torres (1852-1913).

Manitto presidiu à Direcção do Club Setubalense e à Assembleia-geral da Associação Protectora do Asilo da Infância Desvalida[135].

Promoveu e impôs a vacinação e revacinação antivariólica, contra a atitude refractária da maioria da população local, ao mesmo tempo que mandou aterrar pântanos que comprometiam a higiene e saúde públicas.

Foi também actor amador da Sociedade de Recreio Familiar e combatente (1 de Maio de 1847), na batalha do Alto do Viso, em Setúbal, integrando o exército defensor da Carta Constitucional[136].

Vem a colaborar com João Carlos de Almeida Carvalho no jornal O Setubalense que este último fundara em 1855.

Entre os anos de 1866 e Outubro de 1868, presidiu, pela primeira vez, à Câmara Municipal de Setúbal e, de novo, em 1870 até 1880.

Durante a presidência de António Rodrigues Manitto a vila é iluminada a gás, por 150 candeeiros (1870); tem lugar a inauguração do monumento ao Poeta Bocage, na Praça homónima (1871)[137]; são concluídas as obras de ampliação do edifício dos Paços do Concelho (1873); inicia-se o ciclo de “conferências pedagógicas” em que intervém Alberto Pimentel (1875); é inaugurado o Mercado do Livramento (considerado um dos melhores de todo o país, no seu tempo) e é emitida a licença para venda de água nas ruas (1876); sai a lume a Memória sobre a história e administração do município de Setúbal, da autoria de Alberto Pimentel (1877);

Pg36
aumenta para 213 o número de candeeiros de iluminação por meio de gás na cidade (1879). 

Deve-se-lhe, também, enquanto Presidente do Município de Setúbal, a construção dos cemitérios de Azeitão, Palmela e Marateca (estas duas últimas localidades recorde-se, integravam, então, o Concelho de Setúbal); a preparação de um corpo de polícia e o incentivo à criação da primeira corporação de bombeiros; instituiu formas de patrocinar o funcionamento do Liceu Municipal de Setúbal, mandou abrir escolas nocturnas para a instrução de adultos e promoveu o funcionamento de muitas escolas de ensino primário.

António Rodrigues Manitto, na qualidade de presidente da edilidade local, funda a Biblioteca Pública Municipal; manda abrir uma rede viária que permitiu a circulação entre vários pontos do Concelho; iniciou o movimento pelo prolongamento do ramal de caminho-de-ferro do Sado e ordena a construção da primeira rede de saneamento para Setúbal.

Fez, enfim, publicar o “relatório da sua gerência na Câmara Municipal, desde 2 de Janeiro de 1870 até 2 de Fevereiro de 1880, que é bem uma peça de notável relevo para a vida administrativa e política da nossa terra”[138].

Este notável promotor da elevação económica e social de Setúbal, foi Comendador da Ordem de Cristo.

 

Francisco Maria Cabral de Aquino Mascarenhas. Proprietário mais conhecido por Morgado Cabral. Regenerador. Foi um dos iniciadores, em 1888, da Associação Agrícola de Setúbal. Casou com Augusta Mariana Rita Cabral Mascarenhas (?-1871). Faleceu a 23 de Setembro de 1912, com 86 anos.

 

José de Groot Pombo. Era natural de Setúbal, nascido no ano de 1825. Filho do general Francisco Assis de Groot Pombo e de Maria José de Groot Pombo (?-1871). O registo de falecimento aponta o ano de 1906, quando contava 81 anos. Então, a Assembleia-geral do Club Setubalense, por proposta do primeiro secretário João Maria Cardeal Rocha, expressou o profundo sentimento de pesar

 

“…pondo em relevo os elevados dotes do seu formoso espírito e a honestidade do seu superior carácter, dizendo que S. Exa. fora uma das figuras mais proeminentes da sociedade setubalense”[139].

 

Ainda jovem, em 1850, conta-se entre os fundadores e animadores da Sociedade de Recreio Familiar.
 

Pg37
Cinco anos volvidos, tornou-se colaborador d’ O Setubalense, ao lado de João Carlos de Almeida Carvalho (1817-1897), António Rodrigues Manitto, (1819-1906) e José Sérgio de Capeto Barradas.
José de Groot Pombo casou com Paulina O’Neill, filha de Henrique O’Neill e de Maria Inocência O’Neill. Desta união nasceu Maria da Natividade O’Neill de Groot Pombo que, em Fevereiro de 1870, casaria com José Ahrens, elemento de uma numerosa família setubalense muito activa e ligada à vida social e económica local.

Em 1871 Groot Pombo era administrador substituto do Concelho.

Militante e representante em Setúbal do Partido Regenerador, Pombo participou em várias comissões (1879, 1880, 1883, 1892).

No ano de 1888 foi um dos iniciadores da Associação Agrícola do Concelho de Setúbal, ao mesmo tempo que enviava à Exposição Industrial Portuguesa, realizada na Avenida da Liberdade, em Lisboa, alguns produtos da sua lavoura: seis frascos com sal de 1ª, 2ª e 3ª cristalizações, provenientes de Gâmbia e Motrena; 4 garrafas de mel, sendo duas da Herdade de Cabrela e duas do pomar de laranjeiras de Setúbal[140].

Era dono da Quinta de Aranguez, onde recebia com fausto e na qual, por exemplo, em 1896, se realizaram grandes bailes campestres[141].

Em 1903 era presidente da Assembleia-geral da Empresa Setubalense de Banhos.

 

João Carlos de Almeida Carvalho. Nasceu no dia 5 de Março de 1817, no prédio com o número 224 da Rua da Praia (actual Avenida Luísa Todi), na cidade de Setúbal.

Recebeu o baptismo na Ermida de S. Sebastião[142]. Foram seus pais António Coelho de Carvalho e Ana Rita de Almeida e Silva Carvalho.

Teve por padrinho o avô materno João Carlos de Almeida Soares e por madrinha Nossa Senhora Mãe dos Homens[143].

João Carlos de Almeida Carvalho que exerceu a profissão de taquígrafo (estenógrafo) da Câmara dos Pares, em Lisboa e foi igualmente destacado investigador e compilador da história setubalense, faleceu com oitenta anos, no dia 30 de Março de 1897. Fundou o jornal O Setubalense (Julho 1855) e pertenceu ao grupo iniciador da Associação Setubalense das Classes Laboriosas, fundada em 1855, a primeira associação mutualista setubalense. Era, ainda, proprietário e advogado.
 

Pg38
António José PachecoNatural de Setúbal, era filho de Caetano José Pacheco, proprietário, nascido em Freamunde e de D. Ana Rita Pacheco, natural de Cabanas, termo de Palmela[144], falecida a 21 de Setembro de 1869, com 90 anos[145].

António José Pacheco era irmão de João José Pacheco e foi casado com Guiomar Emília du Bocage (1813-1900), descendente da família do grande vate sadino Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805). 

Por curiosidade, refira-se que esta Guiomar era irmã de Maria José Barbosa du Bocage e tia de José Vicente du Bocage Lima e de Gertrudes Maurícia du Bocage Barbuda e Costa. Permita-se-nos ainda, a propósito das presentes notas biográficas de António José Pacheco, referir que Gertrudes Maurícia foi esposa de Francisco Matos da Costa, proprietário da Revista de Setúbal – órgão do Partido Regenerador, fundado em 1884 e extinto em 1909.

Em 1845, após ter adquirido o edifício onde estava instalada uma casa de teatro, fundada em 1834 por três operários, remodelou-a completamente, erguendo-lhe uma nova fachada, e mudando-lhe a entrada da Rua dos Almocreves para a Rua da Conceição (artéria que, após a implantação da República, passa a ser designada por Avenida 5 de Outubro). A partir de 1855 – aquando da reabertura – a casa passou a designar-se Teatro Bocage. Homenagem ao Poeta setubalense ou tão-só a sua esposa, parente afastada de Elmano Sadino?

Pacheco foi um dos subscritores da placa de homenagem a Bocage, colocada sobre a porta da modesta casa da antiga Rua de S. Domingos (actual Rua Edmond Bartissol), primeira comemoração do vate setubalense promovida em 1864, por Manuel Maria Portela (1833-1906). O nosso biografado contribuiu, então, com a quantia de 2$250 réis.

O tenente-coronel Pacheco foi comandante do Batalhão Nacional de Setúbal vindo a ser condecorado com a medalha das Campanhas da Liberdade[146].

Faleceuno dia 29 de Setembro de 1872, na sua residência sita na Rua Nova da Conceição (actual Av. Cinco de Outubro), sem deixar descendência[147].




 

Pg39
Os primeiros passos do Club Setubalense
 

 
 

Foi a partir do edifício dos Paços do Duque, na Rua da Praia, posteriormente designada Avenida Luísa Todi, que o Club Setubalense desenvolveu as primeiras actividades. Nas salas daquele vetusto edifício terão tido lugar as primeiras reuniões familiares, os primeiros animados bailes.

Esses tempos iniciais da vida da agremiação não terão sido fáceis. Uma vez mais, a falta de documentação impede-nos de avançar informações de pormenor. Ainda assim, admitimos que tenha surgido algum desânimo entre os associados, que tenha esmorecido o entusiasmo em torno do jovem Club e que a actividade deste tenha decaído. Deste modo se compreende que na edição de 25 de Maio de 1873 a Gazeta Setubalense pudesse noticiar que se estava tratando de recompor o Club Setubalense, aumentando-se-lhe o número de sócios.

Terá sido conseguido, então, esse desejado ressurgimento? Julgamos que sim. A 29 de Setembro de 1875, foi já possível realizar no Club um “esplêndido baile” com “numerosíssima concorrência de damas e cavalheiros”. D. Palmira Manitto e Frederico do Nascimento “executaram o duo para violoncelo e piano sobre motivos da Norma, sendo muito aplaudidos”. O periódico que noticia esta actividade acrescenta: “dançou-se com grande animação até às duas horas da madrugada”.[148]

No ano seguinte, a 24 de Setembro, realizou-se no “salão do Club Setubalense” um “grande concerto dado por Frederico do Nascimento” e no qual tomaram parte, “as Exmas. Sras. D. Carlota Lami, D. Virgínia  Neuparth e D. Ernestina Wagner e os Exmos. Srs. Emílio Lami, Augusto Neuparth, Victor Wagner, Sérgio da Silva, Francisco Fernando e António Nascimento”. Do progama do espectáculo dessa noite – que a Gazeta divulgou – constavam oito obras de autoria diversa (E. Lami, F. Nascimento, Leybach, Billema e Smith). O concerto principiou às nove horas da noite e o respectivo ingresso custava 600 réis[149]. O “magnífico concerto seria reportado pela Gazeta na edição de 1 de Outubro. A fechar uma breve nota escreveu-se: “estava brilhantemente iluminado o salão, onde as belezas femininas mais atraentes realçavam, se tanto é possível, com as elegantes e caprichosas toilettes, cooperando assim para o primoroso conjunto que tornou aquela festa artística sobremaneira apreciável e em nada inferior às que se dão na Capital”. 

Em 1877, o Club Setubalense ainda se mantinha instalado nos Paços do Duque. É quanto se depreende do testemunho de Alberto Pimentel, na Memória… de sua autoria, já citada e nesse ano editada. Por essa altura, o Club estava “aberto todas as noites” e o prolixo

Pg40
escritor informa ainda que “durante a temporada dos banhos” se realizavam “ soirées semanais”[150].

Porém, dois anos volvidos, o Club Setubalense mudaria de sede. Ao que supomos, era a primeira vez que tal sucedia. Nos inícios de 1879, era possível ao periódico que vimos citando, concluir a notícia da eleição dos corpos gerentes do Club para esse ano, anunciando aos seus leitores: “o Club vai estabelecer a sua nova residência no primeiro andar do prédio grande dos herdeiros do Sr. Oliveira, na Praia. Fica muito mais bem instalado”[151].

A 15 de Fevereiro daquele ano, o Club abria, por fim, as portas da sua nova residência. Possuía salas “muito confortáveis” que surgiam “à noite, repletas de luz artificial; de dia, repletas de luz natural”[152].

Onde se situava, exactamente, este prédio, na Avenida? Quem era este Senhor Oliveira ou, melhor dizendo, quem eram os seus herdeiros? Não o conseguimos apurar. Do mesmo modo, é legítimo que nos questionemos: por quanto tempo terá o Club permanecido nesta nova sede, pois que, mais tarde, o voltaremos a encontrar instalado no edifício dos Paços do Duque?

O que parece seguro é que o Club terá entrado, uma vez mais, num período de decadência. Em Setembro de 1879, numa nota a propósito da colónia balnear local, a Gazeta Setubalense lamentava-se: “ há, todavia, a falta de um Club, em que se reúnam quotidianamente as famílias, como sucede em outras praias de banhos”. A terminar o redactor acrescentava: “ainda não houve um baile. Terrível decepção!”[153].

Que terá acontecido ao Club Setubalense?

Nos anos de 1879 a 1883, não há na imprensa local referências à actividade do Club. Do mesmo modo, na mesma fonte, não há registo da eleição de corpos gerentes para os anos de 1880 a 1886.

As frágeis menções que conhecemos referem-se a bailes esporádicos realizados por altura do Carnaval ou durante a época balnear[154]. Em 1885 realizaram-se duas reuniões familiares (no Domingo e na Terça Feira de Carnaval). Ambos os encontros foram “muito concorridos e muito animados por famílias da nossa primeira sociedade”, no dizer do articulista da Gazeta[155].

Algo semelhante viria a suceder, anos depois, quando no Club se realizou uma “soirée masquée nas noites de Domingo e Terça-Feira”, que contou “como de costume, com a concorrência da mais fina sociedade setubalense”[156].

A Gazeta Setubalense de 13 de Outubro de 1889 dá conta de um esplêndido concerto no Club por A. Rebel – professor de viola-francesa. Graciosamente, tomaram parte no serão

Pg41
“algumas senhoras, devidamente consideradas como pianistas distintas”. Em simultâneo anunciava-se um próximo concerto em benefício do Asilo da Infância Desvalida de Setúbal.




 

Pg42
O Grémio Setubalense (1890-1898)
 

Em finais do século XIX, na década de 70, as potências europeias (Inglaterra, Alemanha e França) discutiram acaloradamente a partilha dos vastos e ricos territórios africanos. O plano de expansão colonial europeu poria fim ao equilíbrio mundial. Da conferência de Berlim (1884-85) saiu um Acto Geral, definidor de um “novo direito público colonial”, segundo o qual os direitos históricos eram substituídos pela ocupação efectiva.

Portugal ocupava já vastos territórios em África e viu-se, neste contexto, obrigado a um esforço rápido e praticamente impossível de envio de tropas e de funcionários civis para as áreas que pretendia suas.

Ainda assim, entre 1885 e 1890, Portugal organizou várias expedições na tentativa de ocupar os territórios entre as duas costas africanas, das quais as de Serpa Pinto (1846-1901) serão, porventura, as mais conhecidas.

Em 1887, Henrique Barros Gomes (1843-1898), então Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo progressista de José Luciano de Castro (1834-1914), apresentou à Câmara dos Deputados um mapa da “África meridional portuguesa”, no qual a costa ocidental aparecia unida à oriental, entre Angola e Moçambique. Era o “Mapa Cor-de-Rosa”. Este projecto de ocupação dos territórios africanos contrariava os planos expansionistas ingleses.

As relações entre a Inglaterra e Portugal deterioraram-se e a 11 de Janeiro de 1890 foi enviado ao governo português um memorando exigindo a nossa saída dos territórios em causa. A alternativa era a quebra de relações diplomáticas e o provável uso da força. O governo português cedeu e a opinião pública clamou contra os ingleses. Tamanha “afronta” foi tida como “humilhação nacional” a exigir “desforra”. 

Como forma de protesto contra a “pérfida” Inglaterra mudaram-se nomes e apelidos, desfilou-se, organizaram-se diversas manifestações de repúdio, Alfredo Keil (1850-1907), compôs A Portuguesa que mais tarde viria a tornar-se o suporte musical do Hino Nacional.

Então, “o vocábulo Club é frequentemente substituído por Grémio ou Centro”[157].

Também como desafio à Inglaterra, várias câmaras municipais deram o nome de Serpa Pinto (1846-1901) a ruas das suas povoações[158].

Em Setúbal, por deliberação camarária de 29 de Janeiro de 1890, a “requerimento de muitas assinaturas” apresentadas pela população, alteraram-se os topónimos de algumas antigas artérias. Assim, a Rua dos Ourives, a dos Caldeireiros e a dos Sapateiros passaram a denominar-se, respectivamente, Serpa Pinto, Álvaro Castelões e Augusto Cardoso[159].
 

Pg43
O Club Setubalense não ficou alheio a tão vasto e apaixonado movimento de protesto. A direcção composta, entre outros, por António Rodrigues Manitto (1819-1906) e por José de Groot Pombo (1825-1906) reuniu propositadamente e preparou uma revisão estatutária. Assim, a 12 de Fevereiro de 1890 era já possível aos periódicos locais O Distrito e a Gazeta noticiarem que “a direcção do Club Setubalense deliberou que este título fosse substituído pelo de Grémio Setubalense[160]. Foram então elaborados e impressos novos Estatutos em cujo artigo 1.º se pode ler: “o Club Setubalense () passa a denominar-se Grémio Setubalense[161].
Foi com esta nova designação que o Club continuou activo procurando, entretanto, diversificar a sua acção.

Assim, a 27 de Abril de 1890, por iniciativa de Jorge de Cabedo, efectuou-se, na sede do agora Grémio Setubalense, um sarau preenchido com um vasto programa que não resistimos a registar aqui, até porque a mera enumeração dos participantes documenta o carácter familiar e restrito que a Associação então mantinha.

Representou-se a comédia em um acto A Roca de Hércules, com o desempenho de D. Teresa Pais e J. de Cabedo. Depois, Carlos Teixeira recitou a poesia cómica O Caos à qual se seguiu a comédia em um acto Quem desdenha, com interpretações confiadas às senhoras D. Teresa Pais, D. Carlota Grill, D. Luísa Grill Costa Leal e aos senhores Jorge de Cabedo, João António da Costa Leal, José Vicente du Bocage Lima e José Calheiros. Houve ainda tempo para se assistir ao monólogo O Meu Museu, por Girão Calheiros e para a representação da comédia em dois actos Os supersticiosos, por D. Carlota Grill, D.ª L. G. Costa Leal, D. Teresa Pais e pelos senhores J. A. da Costa Leal, J. V. du Bocage Lima e Henrique de Groot Pombo. Foram cenógrafos do espectáculo José Calheiros e José Ahrens.

A assistência foi de tal forma numerosa que causou espanto. As senhoras, em número que terá sido superior a uma centena, “com variadas e vistosas toilettes davam um tom alegre àquele esplêndido salão”, eram acompanhadas por inúmeros “cavalheiros da nossa primeira sociedade”. A orquestra, regida pelo já referido Jorge de Cabedo, interpretou A Portuguesa e, depois, o baile ter-se-á prolongado até às 4 horas da madrugada[162].

A 19 de Abril de 1896 houve récita no Grémio, por um elenco amador, na presença de “por assim dizer (…) toda a elite setubalense, destacando-se ao fundo as lindíssimas toilettes das mais distintas damas desta cidade”[163]. Representaram-se as comédias Um Doido… por conveniência e Zaragueta e um episódio cómico da autoria de Costa Leal intitulado História dos Grilos. António José Camacho dirigiu a orquestra e António Calheiros desempenhou as funções de ponto.
 

Pg44
 
 
 
As razões que motivaram a alteração do nome da colectividade (de Club Setubalense, para Grémio Setubalense) não terão sido, compreensivelmente, pacíficas. Podemos surpreender as então surgidas e já referidas dissenções se atentarmos no facto de que a 21 de Novembro de 1896 O Elmano, citando A Revista de Setúbal, permitia-se escrever que “finalmente” se tratava de dotar Setúbal “com um novo club em condições que não envergonhem uma cidade da importância da nossa”. Na continuação, o articulista fazia um voto: “Estimaremos, portanto [ver esta ideia], convertida em realidade e o actual club entregue ao destino – servindo de galeria fotográfica ou de estufa de plantas raras”.
Terá sido em resultado de tais atritos que, já em Setembro de 1890, alguns sócios haviam sugerido a construção de uma sede própria “para o que se levantaria o capital de 6.000$000 réis, em 240 obrigações amortizáveis em 60 anos”[164]?

Segundo os responsáveis daquele alvitre, “construir-se-ia um chalet modesto, mas elegante, com um jardim e o preço de construção, mobília e utensílios não excederia aquele capital”[165].

Para fazer face aos juros e amortizações propunham, entre outras medidas, o aumento do valor das quotas, o pagamento de jóia e novas tabelas para os jogos. Uma comissão foi nomeada para estudar o assunto. Quais terão sido as conclusões de tal estudo? Não o pudemos averiguar.

Ainda assim, sabemos que o “chalet modesto, mas elegante” não foi construído.

Ao mesmo tempo, discutia-se a possível instalação do Grémio Setubalense no projectado edifício do teatro D. Amélia da forma que mais adiante veremos.

Em 1895, o Grémio funcionava em parte do segundo andar do edifício dos Paços do Duque. Foi, então, que se colocou a hipótese de arrendar todo aquele piso.

A 24 de Abril daquele mesmo ano, em reunião da Assembleia Geral presidida por Maurício Carlos Martins de Oliveira[166] foi apresentado pela Direcção um ofício no qual se lia: “oferecendo-se actualmente ensejo para o Grémio Setubalense tomar de arrendamento todo o segundo andar do prédio em que presentemente ocupa metade do referido andar e não querendo a Direcção resolver coisa alguma sem [ex]pressamente ouvir o parecer da Assembleia-geral, vou ter a honra de rogar a v. Exa. que se digne mandar convocar com a possível brevidade a reunião”[167] do dito órgão. A missiva foi assinada pelo presidente da Direcção que nesse ano era Libânio Tomás da Silva[168].

Segundo este explicou aos restantes sócios, o senhorio pedia 250$000 réis por “todo ano”, “impondo a condição de atapetar as salas de forma a não haver bulha que incomodasse os moradores do primeiro andar”[169]. Após larga discussão, foi decidido “que convinha tomar

Pg45
de arrendamento todo o andar do prédio”. À direcção ficou incumbido o “encargo de fazer o arrendamento sob condição [de] não aceitar as imposições apresentadas pelo senhorio”[170].

O negócio, porém, não chegou a realizar-se e, ao que parece, o proprietário terá chegado a acordo com outro rendeiro. 

Ao mesmo tempo, outras questões ocupavam a atenção dos membros do Grémio Setubalense. Na reunião plenária de 29 de Janeiro de 1896, o presidente da Mesa – o já citado Martins de Oliveira – permitiu-se alterar a ordem de trabalhos e dirigiu a todos as seguintes palavras:

 

“…parece-me que neste momento e mesmo ante esta Assembleia, não me será levado a mal que sobrelevemos à nossa condição de agremiados desta associação a de componentes da grande colectividade que se honra com o nome da Nação Portuguesa. Assim, pois, e já que um feliz acaso me colheu hoje neste honroso lugar, julgo cumprir um dever que muito bem se casa, aliás, com os meus sentimentos próprios, propondo-vos que comecemos por lançar na acta desta sessão, um voto de congratulação com o país inteiro pelos brilhantes feitos das nossas armas na África e na Índia, visando ele especialmente todos aqueles que directa ou indirectamente, quer no exercício das suas altas ou modestas funções públicas, quer como particulares, quer na qualidade de membros de colectividades, entre as quais (…) nos é muito grato especializar o brioso regimento de Caçadores n.º 1, contribuíram para tão felizes sucessos, por isso que são eles, sem dúvida devidos, ao concurso comum de todos, congratulemo-nos também pelo facto de nos podermos agora apresentar de fronte erguida com a alegria no coração e o sorriso nos lábios ante as nacionalidades para quem quasi já éramos desconhecidos e proclamar bem alto que não esquecemos os exemplos de nossos avós que pela sua heroicidade souberam transformar este pequeno torrão ocidental da Europa em uma nação de heróis”[171].

 

Lembremos que a 29 de Dezembro de 1895 Mouzinho de Albuquerque (1792-1846) concretizara, em Chaimite (1896), a prisão de Gungunhana (c.1839-1906), chefe dos Vátuas, em Moçambique, que ameaçara transformar o seu reino num protectorado inglês. O prisioneiro foi trazido para Portugal e exibido nas ruas. Foi, depois, detido no Forte de Monsanto e, por fim, levado para Angra do Heroísmo até à morte. O cinema trataria este episódio da História portuguesa em Chaimite, realizado por Jorge Brum do Canto (1910-1994), em 1953 e, mais recentemente, no filme Aqui del Rei, de António-Pedro de Vasconcelos (n. 1939).




 

Pg46
A Sede Adiada
 

A 29 de Dezembro de 1888, na sala do Club Setubalense foi assinada a “escritura de outorga dos Estatutos da Empresa de Recreios Setubalense, sociedade anónima de responsabilidade limitada”[172].

Foram fundadores da nova sociedade quarenta e cinco indivíduos, declarados como proprietários, residentes maioritariamente em Setúbal, e a firma J. Nascimento & Oliveira, igualmente sedeada nesta cidade.

O objecto da sociedade, segundo o pacto social assinado na escritura referida, era:

 

“…a exploração de espectáculos recreativos, tauromáquicos, teatrais e semelhantes, em edifícios construídos nesta cidade de Setúbal, por conta própria, por meio de concurso, em terreno adquirido”.

 

Em parágrafo único do artigo 2.º, estabelecia-se que a sociedade poderia

 

“…também construir casas baratas de habitação adjacentes aos edifícios acima ditos, explorá-los, bem como estender a exploração ao género de comércio que geralmente se exerce ou venha a exercer, junto das casas de espectáculo”.

 

Os estabelecimentos da empresa seriam “duas casas de espectáculos com todos os acessórios e construções essenciais anexas”.

Em parágrafo único esclarece-se no documento que

 

“…a primeira a construir [será] em forma de circo para corridas de touros e companhias equestres, ginásticas, acrobáticas e cómicas se denominará Praça de Touros D. Carlos.

“Outra, para representações dramáticas, cómicas, cénicas e de ópera cómica e semelhantes, e também para companhias equestres, ginásticas, etc. e para concertos e bailes e terá a forma de teatro-circo e se denominará Coliseu Setubalense[173].

 

A construção da praça foi iniciada em 1889 vindo a ser inaugurada a 15 de Setembro daquele mesmo ano.

Em Agosto de 1892, um conjunto de indivíduos residentes em Setúbal abriu uma subscrição para dotar a cidade de um novo e moderno teatro. A iniciativa coube a um grupo de entre os fundadores da Empresa de Recreios Setubalense.

Dois meses volvidos, o periódico local O Distrito podia comunicar aos seus leitores:

 

“Acabamos de ver o projecto para o novo teatro. Tem quatro frentes: uma para a Avenida; outra para a nova praça, em frente do Sado e outras duas para as ruas laterais”.

 

Mais se esclarecia que o edifício estava projectado


 

Pg47
“…para teatro e para clube, tendo o teatro uma espaçosa plateia e o clube um espaçoso salão para baile”.
 

E o articulista concluía:

 

“A um simples e rápido exame, parece-nos que o plano reúne todas as condições indispensáveis de uma edificação apropriada às necessidades de Setúbal”[174].

 

Pouco depois, a Câmara fazia saber, por Edital datado de 17 de Dezembro e assinado pelo presidente de então – José António Januário da Silva (1847-1909) – que a 11 de Janeiro do ano seguinte, iria dar “de aforamento sobre a base de licitação de 10 réis por metro quadrado, o terreno, dividido em lotes, situado ao sul da Avenida da Praia”[175].

 

O citado documento especificava, ainda, que

 

“…a parte central do lote do terreno fronteiro à praça só poderá ser aforada para a construção de um teatro, nas devidas condições arquitectónicas”[176].

 

Em Março de 1893, Manuel de Padilha (1871-1922), n’O Elmano, ao escrever sobre a Avenida da Praia, comentava:

 

“Começaram já os trabalhos para a edificação de novos prédios, do lado do rio.

“Vê-la-emos, em breve, ornada de edifícios modernos, chic, elegante, tornada o ponto de reunião da mocidade setubalense. 

“E a dar-lhe o tom mundano, a dar-lhe mais vida, virá, por sua vez o teatro, o teatro de que Setúbal tanto carece e que a formosa avenida também abrigará em seu seio”.

 

Ainda assim, o entusiasmo do articulista não era forte o bastante para reprimir um lamento: “Quem perde com isto é o Sado. Pobre rio! Vamos ficar privados da sua vista”[177].

Palavras premonitórias, as de Padilha. A urbanização do lado sul da Avenida e a apropriação privada da zona ribeirinha criaram, entre a cidade e o rio, uma barreira arquitectónica que ainda hoje os separa. Setúbal começou, então, a virar as costas ao Sado, ao rio que, afinal, estivera na sua génese e fora a base da sua ulterior prosperidade.

Por fim, em Abril de 1893, a Empresa de Recreios Setubalense aceitou o encargo de construir o novo teatro.

Em sessão de Câmara de 6 de Junho de 1894, esta “mandou pôr em praça o terreno para o teatro no dia 27, a preço de 10 réis cada metro quadrado”[178].

A 8 de Setembro daquele mesmo ano, por escritura pública, foram modificados os Estatutos da empresa[179]. Assumia-se edificar uma casa de espectáculos na “Avenida da Praia,

Pg48
desta cidade, no local já aforado ao município, em forma de teatro-sala (…) com a denominação de Teatro Dona Amélia”. Era ainda determinada a construção, adjacente ao teatro e “afora as salas para café, etc.”, de “salas separadas para serem alugadas ao Grémio Setubalense para a respectiva instalação ou a qualquer outra sociedade recreativa que venha a formar-se quando àquela não convenham as condições”.

Em Outubro de 1894, quando já se abriam os caboucos para os alicerces do novo edifício, O Elmano noticiava a realização futura de uma Assembleia-geral da Empresa de Recreios Setubalense e acrescentava:

 

“Esperemos que nesta reunião se assente definitivamente na construção de um teatro à altura – deixando-se de parte o clube, ou dando-lhe o espaço que fique depois de se empregar bem mais utilmente no teatro e dependências, todo o que seja necessário”[180].

 

O periódico já comentara que o Club só interessava “aos seus sócios em número bem limitado” enquanto que o teatro, “elevamento importantíssimo para a avaliação do grande progresso dum centro urbano”[181], interessava directamente todo o público. As novas ideias terão vingado pois que o arquitecto Bigaglia[182], responsável pela traça do novo equipamento cultural, esteve em Setúbal a 21 de Outubro, tendo-se prestado a introduzir no projecto as alterações necessárias para tornar o teatro mais amplo[183].

A ideia de no edifício do teatro funcionar a sede do Club foi abandonada e o D. Amélia abriu as portas na noite de 1 de Agosto de 1897[184].


 

Pg49
 
 
 
Uma nova sede para o Club Setubalense
 

No presente capítulo que historiamos a construção daquela que cremos tratar-se da terceira sede que teve o Club Setubalense. Deste modo, parece-nos ser de inserir um tentame biográfico de uma das personalidades fundamentais para a edificação sobre a qual seguidamente escrevemos.

Referimo-nos a José Joaquim Fragoso, provavelmente o primeiro proprietário do terreno onde foi construído o primitivo edifício em que se integrou a sede do Club Setubalense, era originário do Porto. 

Em Setúbal, Fragoso viveu num prédio da Rua do Carmo[185]. Foi industrial conserveiro, tendo sido co-fundador de várias sociedades (Fragoso & Sá[186], activa entre os anos 1884-1885[187]; Fragoso, Forte & Compª[188], activa entre os anos 1886-1890[189]. Esta casa foi depois fundida na Companhia Perseverança. Fragoso associou-se ainda na empresa conserveira Alves & Fragoso, que funcionou de 1893 a 1912)[190].

Em representação da empresa Alves & Fragoso, vemo-lo na constituição da Litografia Setubalense, em 1895, após adquirir diversa maquinaria e material litográfico a António José Baptista (1854-1912).

Em data que ignoramos, casou com Mariana da Conceição Pereira e, desta união, a 14 de Julho de 1897 nasce Maria Madalena Fragoso que veio a casar com José Alves da Silva, enlace que mereceu circunstanciada referência, pelo menos em O Elmano[191].

No ano anterior José Joaquim Fragoso era legítimo proprietário do edifício-sede do Club Setubalense.

Joaquim Fragoso foi também um industrial corticeiro de sucesso. A sua firma Fernandes, Forte & Fragoso, de Setúbal, obteve a Medalha de Ouro, na Exposição Universal de Paris (1889). 

Funda, em 1880 a Empresa de Recreios Setubalense, a que já nos referimos. É presidente da Associação de Lojistas e Industriais (1896).

Parecia que os negócios em Setúbal iam em bem para José Joaquim Fragoso, pois que, em 1898, associado com João Marques Câncio, Manuel José Cândido Salgado, Francisco Neto de Carvalho e Guilherme Augusto da Costa, apresenta requerimento à autarquia setubalense para que lhe seja autorizada a instalação de uma fábrica de energia eléctrica e concedido o privilégio de exploração e fornecimento de iluminação pública e de força motriz para as fábricas de conserva locais, por 99 anos. Este projecto saiu gorado[192] e a cidade teria

Pg50
 
 
 

de contentar-se com a velha iluminação a gás, por mais de três décadas, pois que apenas em 1930 o tão desejado melhoramento foi introduzido em Setúbal[193].

Um ano depois, uma vez mais em representação da firma Alves & Fragoso e em parceria com mais 12 produtores locais, participou na criação de um “sindicato para protecção à indústria de fabricação de conservas”[194].

O sem-número de empreendimentos que José Joaquim Fragoso leva a cabo durante a vida dá bem nota de personalidade forte e capacidade de liderança, como vimos já e comprovaremos seguidamente: Integra a Comissão do Antigo Círio da Arrábida em 1904, tendo a ela presidido em 1905. Neste último ano é, simultaneamente, Presidente da Associação Comercial de Setúbal; Vice-presidente da Câmara Municipal de Setúbal e, fazendo jus à sua igual dedicação às questões da vida cultural da cidade, preside à Comissão do I Centenário da morte de Bocage.

No ano seguinte, Fragoso, segundo noticia o jornal O Trabalho, filia-se no Centro Regenerador.

José Joaquim Fragoso veio a falecer, em 16 de Janeiro de 1917, contando 74 anos.

Acabada a biografia do proprietário José Joaquim Fragoso, voltemos a abordar, agora, a questão da nova sede do Club Setubalense.

Na edição do dia 22 de Novembro de 1896, O Distrito fazia-se eco de informações divulgadas pela Revista de Setúbal, segundo as quais o GrémioSetubalense tinha “fundadas esperanças de realizar a construção de uma casa para a sua nova instalação”[195].

Havia contratado com José Joaquim Fragoso (1843-1917)

 

“…apropriar [adequar] para esse fim o primeiro andar do prédio de que já mandou fazer os alicerces no aterro da Avenida”[196].

 

Para se discutir tão candente assunto, fora convocada uma Assembleia-geral para o dia 5 de Dezembro, na qual tudo foi aprovado por unanimidade[197]. Esta reunião fora pedida pela direcção do Grémio. Ao entrar-se na ordem de trabalhos, o presidente da mesa – António Pedro Cardoso Júnior[198] – deu a palavra ao presidente da Direcção – João António da Costa Leal – que afirmou ser

 

“…de reconhecida necessidade a mudança do (…) Grémio para outra casa em melhores condições e tendo falado com o (…) consócio, o ex.mo sr José Joaquim Fragoso”…

 

…este se obrigara…


 

Pg51
“…a adaptar o primeiro andar de uma casa que está construindo na Avenida Todi à instalação do (…) Grémio, em conformidade com a planta feita também pelo (…) consócio Sr. José Carlos Girão Calheiros”[199]
 

…mediante um conjunto de condições[200].

A 21 de Dezembro de 1896, foi já possível, em Assembleia da colectividade, ler e aprovar a minuta do contrato de arrendamento, tendo o presidente da Direcção – João António da Costa Leal – ficado “encarregado de assinar a escritura”, em representação do Grémio.

A nova instalação compreendia uma sala de baile com 228 metros quadrados (24 x 9,5) e uma ampla sala de bilhares. O salão permitia, segundo o periódico, do qual respigamos estas informações, que se armasse um palco[201]. Para tanto, o Sr. Fragoso adaptaria às condições necessárias aquele pavimento, que arrendaria por 10 anos[202]

Quanto ao ano de 1897, a actividade do clube deve ter sido diminuta a avaliar pelas raras notícias que ficaram impressas nos periódicos de então.

Em finais daquele ano, era possível ao Elmano anunciar aos leitores: 

 

“Dentro de poucos dias deve ser inaugurada a nova sede do Grémio Setubalense.

“Segundo tivemos ocasião de ver, o Grémio vai ficar perfeitamente instalado. A casa para onde se muda tem todas as condições que uma associação d’aquela natureza pode exigir. Possui um magnífico salão de baile, boas salas de jogos, um bom gabinete de leitura, etc.

“Este importante melhoramento deve-o o Grémio à sua actual direcção que, diga-se em abono da verdade, não se tem poupado a esforços para que ele fique à altura de uma terra importante como Setúbal é”[203].

 

Cerca de um mês depois, a 20 de Dezembro de 1897, o Grémio Setubalense abria as portas[204]. Ao dar-se conta do facto, O Elmano acrescentava:

 

“Conquanto ainda não esteja completa a ornamentação das suas salas, já apresenta uma novidade, qual é a do guarda-portão vestido a rigor”[205].

 

Segundo O Distrito, o Grémio ficaria “sendo a mais bem instalada sociedade de Setúbal, melhor que o próprio teatro D. Amélia”[206].

A 5 de Fevereiro de 1898, um sábado, teve lugar a “sessão solene de inauguração do Grémio Setubalense”. Desta reunião, presidida por António Pedro Cardoso Júnior, foi lavrada uma Acta pela qual podemos acompanhar alguns pormenores da cerimónia. Assim que foi declarada aberta a sessão,

 

“…logo a orquestra [executou] o Hino de Setúbal[207]. O Exmo. Sr. Cardoso Júnior tomou depois a palavra e em frase correcta e elegante congratulou-se por ser ele quem, como presidente da Assembleia Geral, tinha a honra de inaugurar a nova sede do Grémio. Disse que esta inauguração representava um importante melhoramento para 

Pg52

Setúbal. Agradeceu às senhoras presentes o terem vindo abrilhantar, com a sua formosura e seu gentilíssimo espírito, aquela festa e terminou elogiando a direcção do Grémio, em especial o seu digno Presidente, o Exmo. João António da Costa Leal pela maneira como se desempenhou do mandato que lhe fora conferido, conseguindo ao cabo de muitos esforços e dedicação converter em realidade o que há tanto tempo esta agremiação reclamava – uma instalação conveniente e digna da primeira das associações existente nesta cidade”[208].

“Foi uma festa deslumbrante (…). A sessão solene começou poucos minutos depois das nove horas da noite, com a assistência de quanto há de mais selecto na sociedade setubalense. 

(…)

“O aspecto da sala, profusamente iluminada era deslumbrante. As senhoras ostentavam riquíssimas toilettes, e quase todos os cavalheiros vestiam casaca, farda ou smoking.

“A orquestra tocava ao fundo do Salão, num palco cénico habilmente decorado pelo Sr. Isaías Newton”[209]. O mesmo periódico voltaria a referir-se a esta cerimónia, não se esquecendo de destacar o esplendor do baile, no vasto salão nobre, no qual “tomaram parte gentis damas da primeira sociedade da florescente rainha do Sado, muitas muito formosas, todas muito gentis, na sua fina educação, nas suas belas e ricas toilettes, de custosas sedas e esmerada e artística confecção (já agora, vá também um elogio às modistas) e estando numerosa e distintamente representada a elite dos cavalheiros setubalenses”[210].

 

Ao mesmo tempo, o clube reforçava-se pela admissão como sócios de “muitos cavalheiros desta cidade”. O periódico O Elmano regozijava-se com o facto pois que deste modo se poderia “manter tão útil agremiação”[211].

O Grémio Setubalense vivia, então, tempos de profunda mudança de que é corolário a realização, a 10 de Fevereiro de 1898, de uma reunião da Assembleia-geral na qual foram aprovados alguns aditamentos aos Estatutos.

A reunião magna iniciou-se pelas 9 horas da noite “sob a presidência do Sr. António Pedro Cardoso Júnior, secretariado pelos Srs. António Francisco Teixeira[212] e José Pombo Ahrens”.

Sigamos o que se passou nessa reunião, segundo o texto da respectiva acta: 

Entre outras, João António da Costa Leal, em nome da direcção, de que era presidente, apresentou as seguintes propostas:

 

“É autorizada a actual direcção a arrecadar as receitas do Club e fazer as despesas indispensáveis além do expediente ordinário, até à eleição da nova direcção que, por motivo de força maior, não pôde este ano ter lugar na época designada nos estatutos”[213].

 

Relativamente às alterações estatutárias foi proposto que:

 

“O actual Grémio Setubalense passe d’ora avante a usar a denominação de Club Setubalense que lhe foi dada na época da sua criação em 1856”[214].

 

A Associação regressava, assim, à sua antiga designação.
 

Pg53
Propôs-se, ainda que: 
 

“Os sócios ordinários pagarão, desde o 1.º de Janeiro do ano corrente a quota mensal de 600 réis.

“Os sócios ordinários propostos, desde o dia 1.º de Abril próximo, inclusive, pagarão além da quota designada (…), a jóia de 5$000 réis.

“A jóia a que se refere este art. deverá ser paga no acto de admissão ou em duas prestações consecutivas, sendo a segunda aumentada ao recibo da primeira quota que o novo sócio tenha a satisfazer.

“Fica a direcção autorizada a dispor do salão de baile para n’ele se realizar[em] quaisquer reuniões, bailes ou espectáculos, destinados a sócios e suas famílias ou pessoas apresentadas nas condições estabelecidas pelos estatutos, podendo as entradas, em tais casos, ser pagas ou gratuitas, conforme melhor convenha aos interesses do Club.

“Pelas disposições do presente aditamento, ficam revogadas todas as que lhe forem contrárias.

“Todas estas propostas foram aprovadas sem discussão, por unanimidade”.

“Em seguida fez-se a leitura do relatório e contas apresentadas pela direcção que igualmente foram aprovadas.

“Procedeu-se em seguida à eleição da comissão revisora de contas, que ficou composta dos Srs. Dr. Augusto César Loforte, José Vicente du Bocage Lima e Henrique Pombo.

“Para a mesa da Assembleia-geral foram eleitos os Srs. Presidente: José de Groot Pombo; Vice-presidente: António Pedro Cardoso Júnior; 1.º secretário António Francisco Teixeira; 2.º secretario: José Pombo Ahrens.

“Em conformidade com uma das propostas aprovadas, foram eleitos por aclamação para formarem a comissão organizadora das soirées que se hão-de realizar em o Club nas noites do Carnaval, os seguintes Srs.: José Pombo Ahrens, João Carlos Henriques, Jayme d’Oliveira Barros, Horácio Walpole Henriques, Domingos C. da Silva Patacho, Joaquim do Carmo Borges Lagoa, Carlos Alberto dos Reis, Zacarias José de Sant’Anna e Luiz C. da Silva Patacho.

“O Sr. Leal propôs um voto de louvor à mesa da Assembleia-geral, que foi aprovado por unanimidade. Em nome da mesa, agradeceu esta manifestação, o Sr. Cardoso”[215].

 

O periódico O Elmano que sintetizou o acontecido nesta reunião magna acrescentava que

 

“…a Comissão organizadora das soirées do Carnaval anda já trabalhando para se desempenhar o melhor possível da missão que lhe foi confiada. Espera-se por isso que este ano, no Club, o Carnaval marque um verdadeiro acontecimento”[216].

 

O Club Setubalense entrara decididamente numa nova fase da existência.

Em 1898 e 1899 a actividade do Club foi intensa a avaliar pelo que hoje podemos ler nas páginas dos jornais locais coevos.

A 14 de Abril de 1898, uma Quinta-Feira, realizou-se

 

“…no vasto salão do Club Setubalense um concerto por distintos amadores de música. O programa foi cumprido à risca e todos os seus números calorosamente aplaudidos”[217].


 

Pg54
A 17 de Setembro de 1898, houve récita pelo grupo dramático do Club. Não era, aliás, a primeira vez que esta agremiação abria as portas aos amadores da Arte de Talma. Naquela noite estreou-se a comédia em três actos O Sultão, “original d’um nosso ilustrado colega que oculta o seu nome sob as iniciais C. L.”, segundo as palavras d’O Elmano[218]. Tratava-se de Costa Leal, como facilmente se adivinha e o próprio Elmano confirmaria na edição de 21 de Setembro.
Às nove horas da noite teve início o espectáculo. Em pouco tempo, o salão “regurgitava” de “damas e cavalheiros” que “extraordinariamente animados” dispensaram aos amadores “prolongadas ovações”. Actuaram nessa noite: D. Joaquina Guerreiro Henriques, D. Guilhermina Reis, D. Carolina Sousa Magalhães, D. Maria A. de Sousa Magalhães, Costa Leal, Bocage Lima, Jaime de Oliveira Barros, Henrique Pombo, Luís Patacho e Carlos Reis.

Antes, porém, um grupo composto por D. Carmina Cardoso, D. Sara Newton, José Pombo Ahrens, João José Lucas, Galiano Esteves, Joaquim Correia, Freitas Pereira e Celestino Pinto executou um escolhido programa musical. A partir dessa noite as soirées passaram a ter lugar no Club às Quartas e Sábados.

A 1 de Outubro daquele mesmo ano, realizou-se um concerto que “excedeu toda a expectativa “. O Elmano procurou “dar uma pálida ideia do que foi essa brilhante festa durante a qual foram executados dezoito números musicais”.

 

“Abriu o concerto com aRésignation de Fauconnier e fechou com os Regrets, do mesmo autor, imagens musicais que foram executadas correcta e primorosamente pelo sexteto composto das Sras. D. Carmina Cardoso (órgão) e D. Alda Zorro (piano) e dos Srs. Galiano Esteves (primeiro violino), José Pombo Ahrens, Guerreiro (segundos violinos), João José Lucas (flauta) e Celestino Pinto (violoncelo).

“O Sr. Guerreiro cantou com bastante sentimento a canção de Hess, Dis moi que tu m’aime, a serenata da ópera I Medici, e, em dueto com a Sra. D. Sofia de Magalhães, um trecho do Ernani.

“Esta distintíssima amadora fez ainda ouvir a sua bela voz de mezzo-soprano na Ave Maria, de Luzzi, na ária das Jóias, do Fausto e no For all Eternity, de Mascheroni, que cantou deliciosamente, justificando mais uma vez o que já dela dissemos noutra ocasião – que quem possui dotes vocais como os seus bem podia aspirar a uma brilhante carreira artística”.

 

O repórter de O Elmano continua a descrição daquele brilhante serão musical referindo-se às senhoras

 

“D. Alda Zorro, D. Carmina Cardoso e D. Sara Newton [que] fizeram-se ouvir em solos de piano, executando com mestria difíceis trechos de música.

“A primeira tocou o Capricce sur Ernani, de Prudent, a Sinfonia de Suppé, Slott Bursche e o Tremolo, de Gottschalk; a segunda o Caprice espagnol, de Noguez e a terceira, a Rapsódia Húngara, de Lizst.

“Em dueto de piano e órgão, as Sras. D. Carmina Cardoso e D. Sara Newton executaram explendidamente Les Soupirs, de Battmann, e em dueto de flauta e piano,

Pg55
o Sr. Lucas e a Sra. D. Carmina, uma Fantasia sobre a ópera de Verdi Força do Destino.

“O Adoremus, de Ravina foi magistralmente tocado no piano, órgão, violino e violoncelo pelas Sras. D. Alda Zorro e D. Carmina Cardoso e pelos Srs. Galiano Esteves e Celestino Pinto.

“Num dos intervalos, a menina Carminda Câncio disse com graça a cançoneta Ut-lá-lá.

“Todas as damas e cavalheiros que tomaram parte no concerto foram, como era justo, muito aplaudidos. Àquelas ofereceu a direcção do Club lindos bouquets e além destes brindes houve mais os seguintes:

“À Sra. D. Alda Zorro foi oferecida uma elegante courbeille pelos Srs. Grill, Cardoso, Ribeiro e Brandão, e um ramo de flores pelo Sr. Mengo.

“À Sra. D. Sofia de Magalhães foi ofertada uma profusão de pequeninos bouquets e à Sra. D. Sara Newton uma coroa de flores por uma das suas amigas”[219].

 

A 28 de Setembro de 1899, teve lugar um outro concerto pelo violinista D. Ramón Calle e pelo pianista D. Juan Solis. Na ocasião, estes instrumentistas acompanharam o “aplaudido cançonetista fin de siècle Joaquim Vaz” que se encontrava em digressão nacional[220].

Ainda em 1899, para 23 e 24 de Dezembro, prepararam-se “duas festas muito atraentes e simpáticas”. No primeiro dia realizou-se uma soirée “com árvore do Natal vistosamente iluminada” e no segundo teve lugar uma matinée infantil com distribuição de prendas sorteadas pelas crianças[221].

À Assembleia-geral que reunira a 11 de Novembro de 1899, a Direcção do Club apresentara um conjunto de modificações aos Estatutos que foram unanimemente aprovadas, sem discussão[222]. Efectivamente, no Arquivo do Club existe manuscrito, um exemplar dos Estatutos do Club Setubalense, datado de 1899. Assim se concluía, ao que parece, o processo de revisão estatutária iniciado em 1898. 

Em 1903, a situação económica da associação não era a melhor. A 16 de Dezembro daquele ano, reuniu a Assembleia-geral propositadamente convocada “a pedido da direcção para apreciar uma proposta sobre as finanças do Club[223]. Na ocasião foi sugerido que a dívida existente no final de 1903 fosse repartida igualmente pelos sócios. A questão foi discutida com intervenção de Costa Leal, Jorge Gomes, José Joaquim Fragoso, José Groot Pombo, Venâncio Olímpio Ferreira Torres, João Pinto e outros.

A Direcção, afinal, recuou na intenção de solucionar o problema financeiro do Club pelo recurso a um rateio da dívida entre os sócios e foi João C. Henriques quem apresentou uma proposta de síntese: “que a Direcção promovesse uma subscrição entre os sócios para amortização da dívida do Club[224]. A proposta foi aprovada por maioria. A questão financeira não voltou a ser tema de reunião, pelo que supomos ter sido sanada.
 

Pg56
Em 1905, Setúbal animava-se em torno das comemorações do I Centenário da morte do Poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805). No Club foi Costa Leal, presidente da Direcção, quem, na reunião da Assembleia de 14 de Dezembro, tomou a palavra para lançar aos restantes consócios um desafio. Segundo aquele dirigente,
 

“…comemorando-se brevemente o centenário do insigne poeta setubalense Manuel Maria Barbosa du Bocage, parecia-lhe que [o] Club deveria, por alguma forma, associar-se àquela festa, para a qual, já a Direcção fora convidada pela grande Comissão promotora do referido centenário”[225].

 

Costa Leal era, também, membro da Comissão do I Centenário bocagiano à qual propusera, como forma de comemorar o vate sadino e de lhe perpetuar a memória, a criação de um Instituto Bocage, com o fim de socorrer os trabalhadores privados pela doença de angariar os seus meios de subsistência. Seria esta uma espécie de associação mutualista e a ideia era acarinhada por alguns membros da Comissão, entre os quais encontramos Manuel Maria Portela (1833-1906) e pela imprensa mais conservadora (Revista de Setúbal), não colhendo grandes apoios por parte dos sectores republicanos e daqueles que lhes eram próximos. Aos consócios do Club Setubalense, Costa Leal propunha “auxiliar a criação e manutenção do projectado Instituto, em harmonia com os seus recursos”, concorrendo “com uma percentagem das suas receitas ordinárias, visto tratar-se de um estabelecimento de beneficência, tão necessário em Setúbal”[226]. Para tanto, conforme o documento que vimos citando, o Club contribuiria “com cinquenta por cento das suas receitas extraordinárias”. Podemos adivinhar que a este alvitre se terá seguido uma acalorada discussão, pois que alguns membros presentes combateram denodadamente a ideia. Foi então que o Dr. Luís Teixeira de Macedo e Castro formulou uma segunda proposta, de acordo com a qual, o Club Setubalense concorreria com a verba que a Direcção julgasse mais proporcional à receita líquida existente em 31 de Dezembro desse ano, a qual deveria ser entregue “por uma só vez, e quando o mesmo Instituto est[ivesse] definitivamente organizado”[227].

A Direcção far-se-ia representar nos festejos e, durante os três dias que estes durassem, seria iluminada a fachada do Club.

 

O Regicídio

 

O Ultimatum inglês de 1890, de que já falámos no capítulo O Grémio Setubalense, assumiu foros de “humilhação nacional” e teve, naturalmente, consequências.


 

Pg57
A nível externo, consolidou-se a presença portuguesa em África, de tal jeito que só após o 25 de Abril de 1974 Portugal abandonaria as posições ali ocupadas.
A nível interno, a monarquia tremeu, a figura do Rei viu-se envolvida numa onda de ódio e o movimento republicano impacientou-se. A 31 de Janeiro de 1891 eclodiu no Porto a primeira revolta republicana portuguesa. No dizer de Sampaio Bruno (1857-1915) foi uma “noite de sonho, noite de anelo, em que pelo ar perpassou a cândida imagem da liberdade e fulgurou crepitante o clarão sagrado do futuro”[228]. Ainda que debilitada, a monarquia resistiu e manteve-se no poder por mais dezanove anos.

Entretanto, a crise financeira agravara-se acabando por permitir a entrada em cena de João Franco (1855-1920) que à frente do governo estabeleceu a ditadura a partir de 1907, seguindo uma política contraditória e extremista.

A 1 de Fevereiro de 1908, após ter assinado, em Vila Viçosa, um decreto que previa a deportação para o Ultramar (Timor) de alguns adversários, D. Carlos (1863-1908) regressava a Lisboa, acompanhado da família real. Surgiu, então, o imprevisto.

 

“O Imprevisto era Buiça que trazia nas suas mãos serenas e justiceiras a sentença que um povo inteiro não tivera a coragem de decretar e executar”,

 

nas palavras de Alfredo Pimenta (1882-1950)[229]. O Rei e o príncipe D. Luís caíram varados pelas balas.

Em reunião de Assembleia-geral de 23 de Maio de 1908, com o Dr. Aparício Alberto Fernandes Calheiros[230] na presidência da Mesa, foi votada e aprovada, sobre a questão do Regicídio, uma proposta da Direcção presidida por Costa Leal, do teor seguinte: 

 

“A direcção do Club Setubalense tem a honra de propor que na acta da sessão da Assembleia Geral para hoje convocada, a primeira que se realiza depois do atrocíssimo atentado de 1 de Fevereiro – o nefando crime que enlutou dolorosamente a Família Real Portuguesa e cobriu de ignomínia o glorioso nome nacional, seja exarado um voto do teor seguinte: a Assembleia-geral do Club Setubalense protesta, em nome da civilização e da humanidade, contra o bárbaro e cruel assassínio de S. M. El Rei o Senhor D. Carlos I e de S. A. o Príncipe Real D. Luís Filipe; pede permissão para mui respeitosamente apresentar a S. M. El Rei o Senhor D. Manuel II, a S. M. a Rainha Senhora D. Amélia e a S. M. a Rainha Senhora D. Maria Pia as mais cordiais e respeitosas condolências por tão doloroso quão lamentável sucesso, e faz os mais ardentes e sinceros votos pelas prosperidades e venturas do novo reinado”[231].

 

Propunham, ainda, que fosse enviada uma cópia da acta a Suas Majestades, tendo o sócio Crispim Pólvora[232] proposto um aditamento sugerindo que uma comissão integrando elementos dos corpos gerentes, se deslocasse a Lisboa, a apresentar a D. Manuel II, a cópia da referida acta. A deslocação de alguns elementos da direcção do Club a Lisboa não seria concretizada, tendo sido, no entanto, remetida a Suas Majestades a referida cópia.
 

Pg58
Assinale-se que, na continuidade das acções do Club no ano de 1910, foram introduzidas algumas alterações no funcionamento interno. Em reunião de Direcção[233] de 31 de Março daquele ano, após “discussão vária” resolveu-se
 

“…que o bufete fosse entregue à firma Lourenço & Lourenço [que era, recorde-se, a proprietária do Café Esperança, localizado no lado oposto da Avenida Luísa Todi] que teria a pagar apenas o gás consumido no respectivo fogão e a submeter-se a não elevar os preços além do vulgar”[234].

 

Pela mesma altura, o salão do Club encontrava-se em remodelação. A 19 de Maio de 1910, a Direcção reuniu para “resolver sobre a forma de armar o palco no salão, depois da reforma por que está passando este”[235].

Após discussão e com o voto contra de Botelho Moniz,

 

“…acordaram em que se armasse o palco, com o cenário e tecto, sendo este suspenso do tecto da sala, para não pesar sobre o cenário, deteriorando este e o estrado, cujo estado já não é bom (…), acordaram mais que as torneiras de distribuição do gás fossem colocadas não (como estavam) no salão, mas nos corredores dos camarins, de modo que quando se dispense o palco, possa o salão ficar livre sem o aspecto inestético de grossas canalizações exteriores”[236].

 

O palco seria “armado sem pano, porque este está deteriorado e queimado; e não se lhe colocarão, por enquanto gambiarras e luzes de ribalta”.

Os directores estavam cientes do

 

“…triste e caricato aspecto q[ue] o palco oferece no salão, principalmente depois deste reparado, atendendo à pouca estética das pinturas do palco e ao seu estado actual, e eram todos d’opinião que um pequeno coreto artístico ao fundo da sala bastaria e seria de efeito mais próprio e harmónico”.

 

Ainda assim, o referido palco valia umas “centenas de mil réis”[237].

Na reunião seguinte (20 de Julho) considerou-se que era muito caro armar o palco e atendendo à débil situação económica do Club, resolveu-se guardá-lo num armazém cedido pelo sócio Venâncio Olímpio Ferreira Torres, na Rua dos Almocreves.

Entretanto, em Portugal implantara-se a República. Curiosamente, nas actas da Direcção não encontrámos a mínima referência a este acontecimento. Porém, registe-se que a Assembleia-geral parece ter deixado de reunir, pois que, do respectivo Livro de Actas, após a sessão de 17 de Janeiro de 1910, não consta a realização de qualquer outra reunião até 22 de Janeiro de 1912[238].

Em 1917, “o problema da luz ocupou a direcção e obrigou-a a uma despesa extraordinária com a aquisição de candeeiros a gasolina para as salas de leitura e jogos”[239].

Pg59
Também no Salão de Baile foi instalado um outro candeeiro a expensas do consócio Venâncio Olímpio Ferreira Torres.




 

Pg60
A Quarta Sede

 

A 16 de Janeiro de 1917 José Joaquim Fragoso faleceu, como referimos acima, e D. Mariana Pereira da Conceição, sua viúva, tomou posse do prédio construído na Avenida Todi e no qual funcionava o Club Setubalense.

No Livro B-35 do Registo Predial, arquivado na Primeira Conservatória do Registo Predial de Setúbal, consta um averbamento de 22 de Janeiro de 1918, pelo qual ficamos a saber que o prédio em causa constava, à época, “de armazéns e 1.º andar”.

Em reunião de Assembleia Geral de 15 de Janeiro de 1920, Romano Batista[240], então presidente da Direcção,

 

“…expôs o que se tem passado com respeito à aquisição do edifício onde está instalado este Club, o que durante muito tempo não passou de uma simples hipótese mas que, presentemente tomou uma feição positiva. Disse que o Sr. José Alves da Silva, representando a proprietária do referido edifício, o procurou para lhe dizer que havia quem quisesse comprar a casa, oferecendo-lhe trinta e cinco contos, mas que se o Club a quisesse, que lhe dava a preferência e mantinha o preço de trinta e cinco contos”[241].

 

A Romano Batista parecia que o Club, com o incremento que tinha, podia fazer a aquisição que, além do mais, lhe traria rendimentos. Valia a pena o risco de um empréstimo.

A Direcção foi mandatada para tratar do assunto, por proposta do Dr. Macedo e Castro, aprovada por unanimidade. 

O negócio não se realizou, pois que a 25 de Março de 1920, a viúva Fragoso, proprietária, compareceu perante o notário da Comarca de Setúbal Adriano de Vilhena Pereira da Cruz e assinou uma “escritura de venda” do referido edifício a José Gomes da Costa Soares Russel do Amaral Sá Brandão, que passaremos a designar simplesmente por Gomes da Costa, negociante e proprietário, morador em Setúbal, na Avenida Luísa Todi. Segundo o documento que vimos seguindo, a venda foi feita pela quantia de “quinze mil escudos”[242].

A 29 de Maio de 1920, o novo proprietário arrendou ao Club Setubalense o primeiro andar do prédio pouco antes adquirido, pelo prazo renovável de cinco anos e pela renda de 70$00 mensais. O andar arrendado serviria “exclusivamente para instalação do Club Setubalense”. No clausulado do contrato estabelecia-se, ainda, que logo que o senhorio o desejasse, podia “fazer obras para levantar um segundo andar no prédio arrendado” e “modificar os armazéns do mesmo prédio”, sem que o inquilino pudesse reclamar qualquer indemnização. Ainda assim, acautelava-se que as obras seriam “feitas de forma a não

Pg61

prejudicar o regular funcionamento do Club, tanto quanto possível seja, e atendendo às modificações que na própria casa do Club tenham de ser efectuadas”[243].

O novo proprietário não perdeu tempo e em Agosto seguinte era já possível ao periódico O Setubalense noticiar: “Já começaram as obras para a ampliação do prédio, propriedade adquirida pelo Sr. Gomes da Costa”[244].

O projecto do novo edifício foi confiado ao desenhador Jorge Paiva Diniz, à época desenhador municipal e autor da traça de múltiplas e boas construções então promovidas em Setúbal[245]. Um exemplar do desenho dos alçados e das plantas respectivas guarda-se, hoje, no Club Setubalense.

Entretanto, devido às obras, os bailes de Carnaval de 1921, promovidos pelo Club, tiveram que ser “efectuados nas salas da Associação Comercial e Industrial, para esse fim generosamente cedidas”, conforme a imprensa prevenira os habituais frequentadores do tão apreciado divertimento[246].

Em 1922, o Club encontrava-se, uma outra vez, em precárias condições financeiras. 

Terá sido a direcção presidida pelo Dr. Fernando Garcia (1872-1931) que operou uma ligeira e, ao que parece, transitória recuperação financeira. Pelas contas apresentadas à reunião da Assembleia-geral de 11 de Janeiro de 1923, registava-se um saldo positivo de 1.020$00 e as contas do bufete mostravam um saldo igualmente positivo de 103$70. Por este esforço de recuperação financeira foi a direcção louvada em acta[247].

No ano seguinte, o Club luta com falta de recursos económicos, situação agravada por se encontrar deslocado da sua sede. A Direcção eleita para 1924, presidida por José Carlos Girão Calheiros, procurou o proprietário do edifício da antiga sede – Gomes da Costa – com quem conferenciou sobre a possibilidade de retorno às instalações da Avenida Luísa Todi. Este ter-lhe-á respondido que sempre fora seu intuito continuar a arrendar o primeiro andar ao Club. A direcção ficou, então, convicta de que só poderia dispor da casa para os inícios do ano de 1925, face ao atraso dos trabalhos que o novo proprietário mandara realizar naquele seu prédio[248].

Ora sucede que só a 30 de Janeiro de 1926 O Setubalense poderia anunciar, para esse mesmo dia, a inauguração da nova sede do Club Setubalense.

 

“Com a inauguração das suas novas instalações – acrescentava o periódico – Setúbal fica tendo uma agremiação que bem se pode confrontar com as melhores que existem por todo o país, ficando assim preenchida uma lacuna que muito se sentia”[249].

 

Em página interior, o então diário local detinha-se na apreciação do novo edifício e no panegírico do Sr. José Gomes da Costa, um “arrojado proprietário”, que


 

Pg62
 
 
 
“…com enormes sacrifícios, que lhe acarretaram a sua construção conseguiu dotar Setúbal do melhor edifício, cuja solidez e beleza de construção têm sido elogiadas por todos quantos o têm visitado, incluindo alguns engenheiros”[250].

 

Segundo o periódico que vimos seguindo, a cidade tinha, nos edifícios e arruamentos, “o aspecto de cidade antiga, impregnada ainda dum ar carrancudo e grave” que a pouco e pouco ia perdendo,

 

“…modernizando-se e expandindo-se quer comercial e industrialmente, quer pelas novas edificações que a larga iniciativa de alguns capitalistas aproveita[va] para fazer sair a cidade desta ronceirice e apatia em que tem vivido”[251].

 

A Avenida Luísa Todi era, na opinião do articulista daquele “diário da noite” que vimos citando, “uma das melhores avenidas, não só da nossa terra, mas do país” e tinha

 

“…já algumas propriedades dignas desse nome, entre as quais se destaca[va]m pela sua beleza arquitectónica, a agência do Banco de Portugal[252], ainda em construção e a propriedade do Sr. Gomes da Costa, em cujo primeiro andar…”

 

… o Club Setubalense, nesse dia, inaugurava a sua sede.

 

O Setubalense visitara as instalações “quer do Club Setubalense, como do segundo andar, (…) moradia do seu proprietário”.

No Club – “velha e aristocrática agremiação” – “as diversas dependências” brilhavam “pela simplicidade das pinturas e de todo o mobiliário e pelo luxo e bom gosto”.

 

Nos parágrafos seguintes, o repórter continuava o seu elogio: “Desde os salões de bilhares, sala de leitura e ao largo e sumptuoso salão de baile, espalha-se todo um ambiente de bem-estar e comodidade, próprios duma agremiação como é o Club Setubalense.

 

“O segundo andar, disposto doutra forma, visto que serve para habitação [era], no entanto, digno de nota, pelo extraordinário bom gosto e sobriedade, tanto nas decorações como na disposição, cujo brilho [era] realçado ainda mais pela profusão de luz eléctrica que ilumina[va] o vasto edifício”[253].

 

O Sr. Gomes da Costa estava, pois, de parabéns pela arrojada iniciativa. Estava, aliás, duplamente de parabéns já que no dia seguinte (31 de Janeiro) festejaria o seu aniversário natalício[254].

A reinstalação do Club foi concretizada num cenário de grandes precariedades financeiras. No preciso ano de 1926 a associação apresentava um deficit de 46 contos, aproximadamente, segundo o exposto por Carlos Botelho Moniz à Assembleia-geral reunida a

Pg63
 
 
 
12 de Fevereiro daquele ano. Foi então aprovada por unanimidade a “venda de vários objectos de que o Club já não necessita[va], entre eles um velho piano”[255].
Agora instalado num dos mais belos edifícios da Avenida, o Club Setubalense terá ganho um novo alento que, certamente, ditou a elaboração de novos Estatutos, aprovados em Assembleia-geral de 13 de Março de 1928. Então, reinterpretando o espírito fundacional consignado pelas normas estatutárias de 1855, o Club passou a prosseguir mais alargados fins, assim formalizados:

 

“…dar incremento à civilização por meio da convivência, da leitura e das reuniões familiares e ainda por qualquer outro conducente ao mesmo fim”[256].

 

Fiquem aqui registados os nomes daqueles que procederam a esta reforma estatutária. Compunham nesse ano a Direcção do Club: António Diogo da Silva (presidente), Humberto Américo Ferreira da Cunha, Luís Silveira, José Júlio Carreira da Cunha e Ricardo M. Durão (vogais). Por seu turno, a Assembleia-geral era composta por: Domingos Fernando Garcia (presidente), António Alberto Bressane Leite Perry de Sousa Gomes (vice-presidente), José Augusto de Almeida e António J. de Morais Júnior (1.º e 2.º secretários, respectivamente)[257].

 

 

Caracterização Sócio-Profissional dos Membros do Club Setubalense

(1876-1935)

 

Nos raros e lacónicos textos já produzidos sobre a história do Club Setubalense este aparece sempre designado como uma associação fundada por elementos da alta e média burguesia local, frequentado pela “boa sociedade” e de “pendor elitista”. 

Estas designações remontam, aliás, aos relatos oitocentistas da actividade do Club que se encontram dispersos em inúmeras pequenas notas da imprensa setubalense. Nunca foi tentada, que saibamos, uma caracterização sócio-profissional dos elementos que integravam o Club.

Conhecemos os nomes de quinze dos fundadores os quais tivemos já oportunidade de biografar algumas páginas atrás. Foi-nos possível apurar a ocupação de dez deles: 5 proprietários, 1 director de alfândega, 1 juiz de paz, 1 negociante/industrial, 1 médico e, por fim, 1 militar. Eram, todos eles, homens feitos. Sabemos a idade de seis destes fundadores. A média etária é de 33 anos.No Arquivo da instituição que é objecto deste nosso estudo encontramos dois livros de registo de sócios[258]. Trataremos aqui, unicamente, o primeiro deles.

Trata-se de um livro do qual constam indicações sobre os vários associados com a menção do número de ordem, nome, profissão, nomes dos proponentes, data de admissão e observações (pedido de demissão, desistência, falecimento, etc.).

 

Pg64
 
 
 
Mais do que um livro de registo sequencial, trata-se de um conjunto de seis listas (ordenadas do primeiro ao último associado considerado), espécie de apuramento de todos os associados ao momento da respectiva elaboração. Assim, julgamos não errar se admitirmos que a análise destas listas permitem conhecer a composição sócio-profissional dos associados do Club, ao momento e para o período em que foram elaboradas.

A primeira lista inclui associados desde 1876 (o sócio à época considerado n.º 1 era o proprietário setubalense Venâncio Olímpio Ferreira Torres) até 15 de Setembro de 1925 (quando se inscreveu o último, o proprietário Frederico da S. Pinto Barahon [?], com o número 274). 

A segunda inclui os nomes dos associados inscritos entre 5 de Agosto de 1887 e 30 de Abril de 1929. O primeiro sócio falecera entretanto e o lugar era agora ocupado (e até ao fim do livro analisado) pelo engenheiro José Carlos Girão Calheiros.

As restantes listas registam os associados até 25 de Fevereiro de 1930 (terceira lista); 24 de Março de 1931 (quarta lista); 23 de Março de 1935 (quinta lista) e, finalmente, até 11 de Dezembro de 1935 (sexta lista).

Pela contagem a que procedemos, identificamos mais de uma centena de profissões que agrupamos no quadro I.

 

Quadro I

 

SÓCIOS DO CLUB SETUBALENSE (1876-1935)

(DISTRIBUIÇÃO PROFISSIONAL)

 


 
1.ª LISTA

(1925)

2.ª LISTA

(1929)

3.ª LISTA

(1930)

4.ª LISTA

(1931)

5.ª LISTA

(1935)

6.ª LISTA

(1935)

PROFISSÕES
OC.
%
OC.
%
OC.
%
OC.
%
OC.
%
OC.
%
COMERCIANTES
63
23
50
24.4
51
24.2
50
22.9
48
18.6
35
19
INDUSTRIAIS
38
13.9
16
7.8
18
8.5
24
11
30
11.6
22
12
FUNC.PUB./MUNIC.
24
8.8
20
9.8
18
8.5
17
7.8
24
9.3
20
10.9
MILITARES
32
11.7
17
8.3
15
7.1
18
8.3
18
7
8
4.3
MÉDICOS
12
4.4
14
6.8
13
6.2
15
6.9
19
7.4
18
9.8
PROPRIETÁRIOS
19
7
14
6.8
13
6.2
18
8.3
15
5.8
10
5.4
EMP. COMÉRCIO
17
6.2
16
7.8
14
6.6
15
6.9
14
5.4
9
4.9
EMP. ESCRITÓRIO
13
4.7
14
6.8
11
5.2
7
3.2
12
4.7
11
6
PROFESSORES
8
2.9
9
4.4
9
4.3
8
3.7
9
3.5
5
2.7
ENGENHEIROS
4
1.5
4
2
5
2.4
9
4.1
12
4.7
10
5.4
ADVOGADOS
6
2.2
5
2.4
4
1.9
5
2.3
9
3.5
9
4.9
BANCÁRIOS
4
1.5
3
1.5
5
2.4
7
3.2
9
3.5
5
2.7
FARMACÊUTICOS
7
2.6
6
2.9
5
2.4
5
2.3
7
2.7
2
1.1
FUNC. JUDICIAIS
10
3.6
4
2
4
1.9
4
1.8
6
2.4
4
2.2
EMP. INDÚSTRIA
3
1.1
1
0.5
3
1.4
4
1.8
5
1.9
3
1.6
NOTÁRIOS
1
0.4
1
0.5
2
0.9
3
1.4
3
1.2
0
0
OUTROS
6
2.2
2
1
9
4.3
8
3.7
13
5
8
4.3
???
7
2.6
9
4.4
12
5.7
1
0.5
5
1.9
5
2.7
TOTAIS
274
 
205
 
211
 
218
 
258
 
184
 

OC.: Ocorrências.

 

Destaca-se o grupo dos comerciantes (com uma percentagem média de 22%) logo seguido dos industriais (10,8%).
 

Pg65
 
 
 
Temos, depois, o grupo dos funcionários públicos e municipais (9,2%). Neste, incluem-se os indivíduos designados por: “empregados públicos”, “empregados municipais”, propriamente ditos e, ainda, o “conservador” do Registo Predial (que era o Dr. António da Costa Botelho Moniz), um “agente consular”, um “secretário da Câmara Municipal de Setúbal” (nada mais, nada menos do que o Dr. Luís Teixeira de Macedo e Castro) ou um “encarregado de obras públicas” (António Girão Calheiros). 
Vem, depois, o grupo dos “Militares”, com uma média de 7,8% de inscritos. Nele predominam, claramente, os “oficiais do Exército”. Refira-se, por curiosidade, que a patente mais baixa encontrada foi a de “sargento do Exército”.

Aos militares seguem-se os “médicos” (6,9%, em média) e os “proprietários” (6,6%).

Vêm, depois, os empregados no comércio[259] e os empregados de escritório (6,3% e 5,1 %, respectivamente).

A estes, seguem-se os professores (3,6%)[260] e alguns profissionais liberais (engenheiros, 3,4%; advogados, 2,7% e farmacêuticos, 2,3%). Entre estas categorias há a considerar os “bancários”, na qual incluímos os agentes e os empregados de algumas casas bancárias (Caixa Geral de Depósitos, Banco Nacional Ultramarino e Banco de Portugal) e um banqueiro[261].

Por fim, registemos a presença de “empregados na indústria” (1,4%) e de “notários” (0,7%).

Pensamos que este quadro nos permite afirmar que os estratos profissionais predominantes nos membros do Club Setubalense são recrutados no seio da média burguesia local.




 

Pg66
 
 
 
A Cidade e o Club Setubalense
na primeira metade do Século XX

 

Inaugurada a nova sede do Club Setubalense em finais de Janeiro de 1926, conforme amplamente referido, anunciava-se como que uma determinante transição, não apenas na orgânica da instituição, mas também, em geral, na sociedade setubalense. 

Concomitantemente, por esse período, o País, política e administrativamente considerado, arrancava para um novo ciclo, esgotada que estava a vigência da Primeira República que se estendeu num arco temporal cobrindo os anos 1910-1926. 

A 22 de Dezembro de 1926, é criado o Distrito de Setúbal. O território do Concelho enquadra-se numa área de 224 ha estando nele recenseados cerca de 8.300 fogos[262].

Começava a fervilhar uma nova dinâmica, cedo abrandada, contudo, cujo alcance e implicações não cabe neste lugar analisar exaustivamente, como se compreenderá.

A este respeito e ao tentar um balanço económico breve da realidade local, importa, desde já, lembrar que Setúbal, entre 1926 e 1930, quanto ao movimento de exportações de conservas, ainda uma maioritária parcela da ocupação laboral da população, representava 50,1% (16 800 toneladas), do total nacional (33 600 toneladas)[263].

A 8 de Dezembro de 1923, fora instituída a Junta Autónoma do Porto de Setúbal, para promover as obras do porto, o qual era, então, o terceiro do país, quanto ao tráfego. Em 1929 tem início a Primeira Fase do Plano Portuário.

A Companhia Geral de Cal e Cimentos, que já explorava desde 1906 uma unidade fabril no Outão, arrendara-a no ano de 1925 à SECIL – Sociedade de Empreendimentos Comerciais e Industriais, Lda, com a qual aquela companhia se funde. Em 1931 entraria em funcionamento o primeiro forno rotativo daquela unidade fabril de cimentos.

A SAPEC – Société Anonyme de Produits et Engrais Chimiques du Portugaldará, por seu turno, início à produção de adubos, também em 1926.

No ano seguinte, aquando da festa do 72.º Aniversário, ocorrido a 12 de Dezembro, foi inaugurado na sede do Club um quadro com os nomes dos seus fundadores. Foi este oferecido por: Dr. Francisco Paula Borba, José Nascimento e Oliveira, Dr. Júlio Torres, Dr. Domingos Fernando Garcia, Ricardo Novais e Henrique Augusto Pereira. A sessão solene, seguida de baile e do descerramento do dito quadro, foi anunciada pel’O Setubalense, na edição de 11 de Novembro, acrescentando: “abrilhantará a festa um quarteto, tocando piano algumas senhoras e havendo recitativos”.
 

Pg67
 
 
 
Em 1927 dois acontecimentos de relevo tinham entretanto marcado o quotidiano setubalense: comemorações do VII centenário de São Francisco de Assis e o I Congresso Nacional de Pesca e Conservas. O Club Setubalense não foi testemunha impávida destes acontecimentos determinantes no futuro da cidade, já que, também por esta altura o constituem e integram-se nele os fundamentais agentes deste incremento económico e industrial que a cidade conhece.
Permitam-se-nos algumas mais desenvolvidas palavras sobre cada uma destas realizações e também, sobre a conjuntura nacional e local em que tão marcantes acontecimentos se inserem.

 

 

O Club Setubalense e o VII Centenário de S. Francisco de Assis.

 

Em 1927, o médico Fernando Garcia (1872-1931)[264] meteu ombros à tarefa de dirigir em Setúbal umas celebrações a propósito da passagem do VII Centenário da morte de São Francisco de Assis. Organizou-se, então, uma “semana franciscana”, que decorreu entre 23 e 31 de Janeiro. Nas palavras de Fernando Garcia a festa teria “um duplo aspecto: religioso e secular. O primeiro ter[i]a o seu encerramento na nossa velha metrópole de Santa Maria”, com “a pompa solene da liturgia romana, na síntese poderosa da Fé sempre viva, do simbolismo fecundo e da grandiosidade tão soberana”. Por outro lado “a palavra de um orador sacro” contaria

 

“…nas brilhantes conferências de São Julião, das coisas grandes, que na ordem da graça, Deus entendeu realizar por intermédio de São Francisco e das singularidades místicas, com que ele realizou sobre a terra a mais perfeita imitação de Cristo que a natural fraqueza humana permite”[265].

 

Depois, o mesmo autor precisava:

 

“…a outra parte da festa, a secular, é a que nos coube realizar e que a meu ver se caracteriza pelo aspecto puramente humano e pela influência social de S. Francisco; a acção puramente humana da sua doutrina, da sua poesia e da sua obra”[266].

 

Para tanto, o dr, Garcia dirigira-se ao Club Setubalense solicitando a cedência das instalações para a realização de um conjunto de conferências e para a cerimónia de recepção às individualidades que visitariam Setúbal por ocasião das celebrações franciscanas. A Direcção, na altura presidida pelo condutor de obras públicas José Carlos Girão Calheiros (1869-1962) julgou-se incompetente para tratar de tão magnânimo assunto e, para o discutir, foi convocada uma Assembleia-geral extraordinária que teve lugar a 18 de Janeiro daquele

Pg68
 
 
 
ano, presidida pelo Dr. Luís Teixeira de Macedo e Castro. A cedência das salas do Club “para as conferências e sessão solene, sob a presidência do Núncio Apostólico, do VII Centenário de São Francisco de Assis” agitou a magna Assembleia e propiciou larga discussão[267].

Alguns sócios (como, por exemplo, o jornalista Afonso de Macedo e Castro (1889-1961) discordavam da cedência das salas do Club, invocando o texto do Art.º 1.º dos Estatutos da Associação que estabelecia de forma clara que esta não poderia ser “em caso algum, órgão de objectos políticos ou religiosos”[268].

Por seu turno, outros sócios (como Raul Santos[269]) consideravam que o Club lucraria “com as conferências e a visita de tão altas individualidades, como o Núncio Apostólico”[270]. Também Fernando Garcia, por certo arrependido do pedido que fizera, lembrava que no Club já se haviam recebido figuras políticas e que se realizara, mesmo, um banquete em homenagem a Eusébio Leão[271]. Posto o caso à votação, a maioria dos presentes na Assembleia aprovou a cedência da sala[272].

O ano de 1927 foi, em Setúbal, marcado por uma profunda crise económica e social. O Setubalense – “diário republicano da noite” – podia afirmar em vésperas das comemorações franciscanas: “em Setúbal morre-se de fome. Há lares onde, de há muito, não entra um pouco de pão, onde só a desgraça e a miséria têm guarida”[273]. Também o insuspeito A Indústria, “semanário propriedade da Secção Sindical dos Fabricantes de Conservas de Setúbal”, teceria um quadro bem negro da situação económica e social da cidade.

A falta de peixe numa terra que vivia quase exclusivamente da sua abundância, acarretou a crise, o desemprego, a fome e impôs a distribuição de refeições às muitas famílias necessitadas. Foi neste clima depressivo, propício e propiciador da exaltação dos mais arreigados valores da religiosidade popular, que decorreram em Setúbal as comemorações do VII Centenário do poverello de Assis. Em face da crise a que já fizemos referência, a Comissão de Católicos organizadora das celebrações teve

 

“…o cuidado de revestir esta solene comemoração da maior simplicidade, limitando-a somente a cerimónias religiosas e a conferências educativas sobre a vida do Santo”.

 

A semana franciscana teve início a 23 de Janeiro com a realização da primeira conferência, na Igreja de São Julião, pelo

 

“…eloquente orador sacro, grande figura da Ordem Franciscana, reverendo Sr. Dr. Leonardo de Castro[274], havendo, no final, Bênção Santíssimo Sacramento e o hino de São Francisco”[275].

Leonardo de Castro voltaria a usar da palavra, a 25 e a 27 desse mês de Janeiro de 1927, sempre na Igreja de São Julião[276].
 

Pg69
 
 
 
A 24 de Janeiro, no Salão Nobre do Club Setubalense foi a vez do “distinto escritor senhor Severo Portela”[277], pronunciar nova conferência abordando a vida e a obra do homenageado. A entrada fazia-se por convites e a sessão foi presidida pelo Dr. Fernando Garcia e secretariada pelo Dr. Mário Esteves[278] e Óscar Paxeco[279]. Durante a Conferência (e nas que se seguiram) realizaram-se peditórios para acudir às famílias mais necessitadas.
A 26 de Janeiro, sempre no Club Setubalense, teve lugar a conferência “S. Francisco e a sua época”, pelo Dr. Carlos Botelho Moniz[280]. Este advogado era, então, presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Setúbal.

No dia 28, uma vez mais no salão do Club, Manuel Gamito teve ocasião de falar de “S. Francisco, reformador suave”[281].

No dia seguinte chegaria a Setúbal o Núncio Apostólico, Sebastião Nicotra[282], acompanhado do vigário geral do patriarcado, o cónego Dr. Manuel Anaquim. Foi aguardado na estação pelas entidades oficiais e ficou instalado no palácio do Sr. Frixell[283].

Foi uma vez mais no salão do Club Setubalense que a 29 de Janeiro, sob a presidência do Núncio Apostólico, teve lugar a sessão solene de encerramento das comemorações franciscanas setubalenses. Fernando Garcia pronunciou, então, um longo discurso que postumamente viria a ser publicado sob o título “No centenário de São Francisco de Assis”. Mais do que à biografia do taumaturgo de Assis, aquele texto importa, a nosso ver, para o estudo do pensamento de Garcia, muito ligado à corrente do Integralismo Lusitano fundado em 1914.

Por seu turno, o Núncio Apostólico “leu em francês um discurso enaltecendo o glorioso Patriarca Francisco de Assis e encarecendo as belezas da região setubalense”[284].

No dia seguinte, na Igreja de Santa Maria da Graça, realizou-se o solene pontifical, tendo assistido Sebastião Nicotra. À tarde, houve Te Deum seguido de procissão, orando o reverendo Leonardo de Castro[285].

Ao noticiar o encerramento das comemorações, O Setubalense considerava-as “de extraordinário brilho e sentida devoção”. Setúbal era, segundo o mesmo periódico, “uma cidade de fé”[286].

A braços com uma severa crise, em breve Setúbal veria revelada a face da ditadura instaurada pelo golpe militar de 28 de Maio de 1926 que poria fim à I República demoliberal. 

A censura prévia à imprensa ­­instituída em Dezembro de 1926 – o mais eficiente de todos os instrumentos repressivos do novo regime – levaria ao encerramento por seis meses (de 5 de Fevereiro a 6 de Agosto de 1926), do diário republicano da noite O Setubalense que, na sua segunda série levava já 11 anos de publicação. Ainda na sequência dos movimentos militares e civis contra a ditadura (3 a 10 de Fevereiro de 1927), também o director do

Pg70
 
 
 

periódico – Luís Faria Trindade (1885-1963) – seria detido a 23 de Fevereiro, sendo libertado a 6 de Agosto…[287]

Estas, porém, são páginas de uma outra história que se contará um dia, como esperamos.

Após a realização das comemorações franciscanas, a actividade do Club parece ter-se animado[288].

 

 

O Club Setubalense e o I Congresso Nacional de Pesca e Conservas

 

Nas décadas de 20 e 30 do século passado, a indústria conserveira setubalense manifestava sinais de cansaço. Introduzida na localidade em 1855 e organizada após a “entrada em cena” dos industriais franceses, em 1880, aquela actividade expandira-se desmesuradamente, chegando a atingir o número máximo de 130 fábricas em laboração. Em 1928 restavam 63![289].

A expansão industrial acarretara o crescimento demográfico e este ditara, por sua vez, a expansão urbana. Se em 1890 a população da cidade rondava os 17 500 habitantes, em 1930 esse número subira para cerca de 46 000, traduzindo um aumento de 163% em quatro décadas. Por seu turno, o próprio tecido urbano expandira-se: a Poente da Avenida Luísa Todi, grande parte da Avenida dos Combatentes, Bairro Melo, Bairro Salgado, etc.

No sentido de se obviar ao conjunto de graves problemas a que conduzira um tão desregrado desenvolvimento industrial, o decre